A revisão da Norma Regulamentadora 1 (NR-1), que passou a exigir das empresas brasileiras o mapeamento e a gestão de riscos psicossociais no ambiente de trabalho, deveria representar um marco na relação entre organizações e colaboradores. Na prática, no entanto, a maioria das empresas ainda corre contra o tempo. É o que aponta levantamento inédito do Pandapé, software de recrutamento e seleção mais usado na América Latina, realizado com 311 profissionais de recursos humanos de empresas de diferentes portes e setores do país, representando desde microempresas com até 50 funcionários (30,87%) até grandes corporações com mais de 1.000 colaboradores (26,05%). Os dados são contundentes: apenas 27,33% das empresas participantes afirmam estar totalmente adequadas às exigências da NR-1 em sua revisão mais recente, que entra em vigor no dia 26 de maio de 2026. Cerca de metade, 49,84%, encontra-se apenas parcialmente adaptada. Outros 17,04% ainda nem começaram o processo, e 5,79% sequer conhecem a norma. "Talvez o dado mais importante dessa pesquisa não seja o percentual de empresas adequadas, mas o fato de que o tema finalmente entrou no centro da agenda corporativa. Quando a saúde mental passa a ser tratada como risco organizacional, muda-se a forma como liderança, cultura e performance se conectam dentro das empresas. A adequação à NR-1 exige mais do que compliance: exige maturidade organizacional", afirma Ana Paula Prado, CEO da Redarbor Brasil, detentora do Pandapé. O cenário se torna ainda mais crítico quando os profissionais são questionados sobre suas próprias perspectivas: 65,28% não acreditam que suas empresas estarão totalmente em conformidade até maio de 2026, sendo que 43,09% apostam em uma adequação apenas parcial e 22,19% não veem possibilidade de cumprimento do prazo. Somente 34,73% afirmam confiar que suas organizações chegarão lá a tempo. Entre os profissionais de RH ouvidos, o sentimento predominante ao pensar na NR-1 é de preocupação (32,8%), seguido por urgência (24,12%), confiança (23,79%) e incerteza (17,04%). Apenas 2,25% revelam indiferença diante do tema, o que sinaliza que a norma já penetrou a consciência da área, mesmo onde a ação ainda não acompanhou o reconhecimento. "Existe hoje uma diferença importante entre consciência e capacidade de execução. O RH brasileiro já compreendeu a urgência do tema, mas muitas empresas ainda não possuem metodologia, dados estruturados ou preparo de liderança para transformar a intenção em prática contínua. E essa transformação não acontece da noite para o dia", diz Ana Paula Prado. Barreiras: conhecimento e metodologia como principais gargalos Quando perguntados sobre a maior dificuldade para se adequar à NR-1, os respondentes apontaram falta de conhecimento (35,69%) e falta de metodologia (34,73%), à frente de questões como falta de dados internos confiáveis (26,05%), ausência de orçamento (18,01%) e falta de apoio da liderança (17,36%). A combinação desses fatores é reveladora: não se trata de uma barreira financeira, mas de uma lacuna estrutural na capacidade técnica de implementar o que a norma exige. Mapear riscos psicossociais é um exercício que demanda método, dado e cultura organizacional alinhada, elementos que boa parte das empresas ainda não consolidou. Essa leitura se confirma quando se observa a situação do mapeamento de riscos psicossociais especificamente: 40,51% das empresas afirmam fazê-lo de forma estruturada e formal, 40,84% realizam o processo apenas parcialmente, e 18,65% simplesmente não o realizam. Ou seja, quase 60% das organizações ainda não têm um processo robusto para cumprir um dos pilares centrais da norma. Cultura como motor, mas execução como obstáculo Um dos dados mais reveladores do levantamento diz respeito à motivação das empresas para agir sobre a NR-1. A resposta mais frequente foi cultura organizacional, citada por 58,2% dos respondentes, superando amplamente a pressão legal (31,83%), o aumento de afastamentos e licenças (18,33%) e critérios de ESG e reputação (10,61%). "Durante muito tempo, saúde mental foi tratada como uma pauta paralela ao negócio. O que vemos agora é uma mudança mais profunda: as empresas começam a entender que ambientes psicologicamente seguros não são apenas mais humanos, mas também mais sustentáveis, inovadores e produtivos", avalia a CEO da Redarbor Brasil. No entanto, o reconhecimento do problema como algo cultural nem sempre se traduz em práticas consolidadas. Quando perguntadas sobre como tratam burnout e outros riscos psicossociais, apenas 18,97% das organizações classificam o tema exclusivamente como um problema organizacional a ser gerenciado sistematicamente. A maioria, 45,02%, reconhece que é um problema ao mesmo tempo individual e organizacional, enquanto 21,54% simplesmente não tratam o assunto e 14,47% ainda responsabilizam apenas o colaborador. Ações em curso, mas ainda aquém do exigido O levantamento também mapeou as ações já implementadas pelas empresas para endereçar saúde mental e riscos psicossociais. Os programas de bem-estar lideram (46,3%), seguidos por treinamentos de liderança (45,34%), canais de denúncia estruturados (44,69%) e pesquisas frequentes de clima organizacional (39,23%). Ainda assim, 21,86% das empresas afirmam não ter implementado nenhuma dessas ações. A liderança também aparece como um elo crítico nesse processo: 49,84% das empresas afirmam que suas lideranças consideram a saúde mental tão importante quanto as metas de negócio, e outros 36,33% fazem isso parcialmente. Somados, mais de 86% das organizações reconhecem algum grau de comprometimento das lideranças com o tema, o que cria terreno favorável para a implementação das mudanças exigidas pela norma. "As empresas que vão avançar mais rápido não serão necessariamente as que enxergarem a NR-1 apenas como obrigação regulatória, mas as que entenderem que o futuro da gestão passa pela capacidade de combinar desempenho, tecnologia e cuidado humano de forma estruturada. Essa não é uma discussão sobre tendência. É uma mudança definitiva na forma como as organizações crescem", conclui Ana Paula Prado, CEO da Redarbor Brasil.