Daniel Vorcaro e Paulo Henrique entram em contradição sobre carteira de créditos vendida pelo MasterSigilo dos depoimentos foi levantado pelo ministro Dias Toffoli. Gerando resumoBRASÍLIA - A Polícia Federal afirma ter encontrado no telefone celular do banqueiro Daniel Vorcaro um grupo de WhatsApp usado por ele para orientar, na visão da PF, dois subordinados do Banco Master na confecção de fraudes em documentos para a venda de carteiras ao Banco Regional de Brasília (BRB). PUBLICIDADEEm um dos diálogos, ele diz aos funcionários que o valor de uma das carteiras de crédito fictícias vendidas ao BRB estava diferente do previsto. “Não fecha a conta”, afirmou. O Estadão teve acesso às conversas desse grupo.Procurada, a defesa do banqueiro, que negocia uma delação premiada, não se manifestou. A PF investiga fraudes em aportes de pelo menos R$ 12,2 bilhões do BRB no Banco Master e pagamentos de propina ao ex-presidente do banco público de Brasília, Paulo Henrique Costa, sob suspeita de favorecer os interesses de Vorcaro. Procurado, o BRB também não se pronunciou.Vorcaro em depoimento à PF no final do ano passado. Em março, banqueiro foi preso pela segunda vez Foto: ReproduçãoNa avaliação da PF, as conversas comprovam a participação de Vorcaro e de outros gestores do Master nas fraudes documentais para obter os recursos do BRB, que eram usados para conter a crise de liquidez do banco de Vorcaro desde agosto de 2024, como demonstram diálogos revelados anteriormente pelo Estadão. PublicidadeO grupo de WhatsApp tinha o nome “INFO - BRB” e era composto por Vorcaro e por dois subordinados: Alberto Félix (então superintendente de tesouraria do Master) e Ângelo Silva (à época diretor financeiro). Procuradas, as defesas de ambos não se manifestaram.Em 23 de junho de 2025, quase três meses após o BRB ter feito uma proposta de compra de uma fatia do Master, Vorcaro cobrou dos subordinados o envio de um extrato da conta das carteiras de crédito consignado fabricadas por uma outra empresa, a Tirreno - que os investigadores suspeitam ser uma empresa de fachada. A documentação precisava ser repassada ao BRB. Leia tambémDa ascensão ao colapso em 6 anos: a linha do tempo do Banco Master e as reviravoltas do casoProposta de delação de Vorcaro ‘não empolga nem irrita’, segundo análise da PGR; leia bastidoresGoverno do DF arrecada R$ 1 bi com securitização, mas ainda busca R$ 6,6 bi para ‘salvar’ o BRBÀs 18h56, o dono do Master escreveu no grupo: “Cadê o extrato”. Alberto Félix respondeu encaminhando um documento já enviado anteriormente por Ângelo Silva: “Tirreno_junho.pdf”. Demonstrando irritação, Vorcaro leu o documento e reclamou dos dados, em mensagem enviada minutos depois. À época, o próprio Banco Central já havia apontado problemas no extrato dessa conta, porque ela não incluía os rendimentos de aplicação financeira. Publicidade“Pessoal. Saldo não pode ser 6.400!!! Era 7.200. Valor da recompra”, escreveu o banqueiro. Os valores citados eram de R$ 6,4 bilhões e R$ 7,2 bilhões. Félix respondeu que a documentação contabiliza ainda alguns débitos. Em seguida, Vorcaro rebate: “Não interessa. Não fecha a conta. Vamos ter que colocar remuneração”. Em 17 de março - dias antes da oferta de compra do Master pelo BRB, o BC já havia feito um questionamento oficial ao Master sobre a falta de documentação dos contratos de créditos da Tirreno cedidos ao BRB. Havia um estranhamento sobre o alto volume de crédito vendido ao banco estatal, assim como a capacidade de o Master e a própria Tirreno gerarem carteiras em valores bilionários por mês. A PF diz que o diálogo mostra que o extrato bancário emitido por Vorcaro era fictício, já que ele pedia correção no valor final do documento.PublicidadeCONTiNUA APÓS PUBLICIDADE“O primeiro aspecto a ser destacado aqui é a manipulação do valor final do extrato relativo ao pagamento da Tirreno pelo pagamento dos créditos originados e posteriormente cedidos ao BRB. Conforme verificado, restou constatado que o extrato da conta vinculada mantida no Banco Master -destinada ao pagamento das carteiras cedidas- deveria apresentar rendimento ou remuneração indexada ao CDB emitido pelo próprio Banco Master”, escreveu a PF. “Chama atenção, inclusive, que no extrato final, apresentado ao Bacen (Banco Central), tenha sido fabricado um terceiro valor, que não corresponde nem aos 6.400 nem aos 7.200″, diz o relatório da PF. O extrato apresentado ao Banco Central contabilizou o valor de R$ 6,6 bilhões para essa conta. Em outra conversa, mantida em 13 de maio de 2025, Vorcaro enviou aos subordinados uma lista de inconsistências detectadas pelo BRB nas carteiras de crédito cedidas pelo Master e solicitou a confecção de documentos para tentar dar aparência de legalidade ao negócio, segundo a Polícia Federal.Os dois primeiros pontos citados tratavam da ausência de reconhecimento em cartório dos contratos da Tirreno e a falta do envio desses contratos. Alberto Félix respondeu: “Vou pedir para reconhecer firma dos contratos e aí já te enviamos todos”.PublicidadeOutra ressalva encaminhada por Vorcaro era a necessidade de encaminhar os “comprovantes de averbações”, para mostrar que os contratos de crédito consignado tinham passado pelo registro em um órgão competente, como um cartório - o que dava respaldo legal à documentação. Alberto Félix, então, respondeu: “Esse é difícil”.As conversas do grupo mostram que a pendência de documentos para o BRB continua. Por isso, em 23 de maio de 2025, Vorcaro volta a cobrá-los pela documentação. “Você consegue mobilizar todos aí pra responderem esses pontos (do) brb?”, escreveu. Félix disse que aguardava uma terceira pessoa emitir os contratos de “cláusula mandato”, que permitiam que o Master emitisse créditos de um consumidor originados de uma outra empresa - que, segundo a PF, eram créditos falsificados para venda ao BRB.Vorcaro demonstra pressa. “Não dá pra fazer um mutirão de emissão no fds (fim de semana)?”, pediu ao subordinado. Publicidade“Note-se que a revisão dos contratos por Alberto está ocorrendo apenas em maio de 2025 quando, ao menos em tese, os contratos já deveriam estar assinados, uma vez que os negócios datam de janeiro de 2025″, escreveu a PF sobre o diálogo.
Grupo de WhatsApp de Vorcaro era usado para acertar fraudes no BRB, diz PF: ‘A conta não fecha’
De acordo com a Polícia Federal, banqueiro dava ordens a dois subordinados para alterar extratos e confeccionar contratos usados para vender falsas carteiras de crédito ao banco público; Master e defesas de Alberto Félix e Ângelo Silva não se manifestaram















