0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O CEO do Banco Master, Daniel Vorcaro, preso nesta terça (18) pela PF — Foto: Ana Paula Paiva/Valor O dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, teve “acesso relâmpago” a uma apuração preliminar aberta pelo Ministério Público Federal (MPF) envolvendo a destituição de dois gerentes da Caixa Asset que se opuseram à compra de um lote de R$ 500 milhões em letras financeiras do Master. Mensagens obtidas pela Polícia Federal mostram que, dois dias após a iniciativa do MPF, Vorcaro recebeu em seu celular o documento que informava a abertura do procedimento sigiloso sobre o nebuloso negócio entre a Caixa Asset e o Master, que não foi concretizado após a área técnica do banco estatal considerar a operação “arriscada” e “atípica”. O registro da autuação da “notícia de fato” foi enviado a Vorcaro em 18 de julho de 2024, apenas dois dias após a movimentação da Procuradoria da República no Distrito Federal. Em relatório encaminhado ao Supremo Tribunal Federal (STF) e que faz parte do conjunto de documentos tornados públicos na última terça-feira pelo ministro André Mendonça, a PF afirma que Vorcaro “buscava compreender a natureza, o motivo e o andamento dos procedimentos sigilosos em que seu nome aparece como parte ou possível investigado”. O banqueiro recebeu o material de um de seus capangas, Luiz Phillipi Mourão, o Sicário, que ganhava R$ 1 milhão por mês para providenciar uma série de atividades ilícitas, como obter acesso a investigações sigilosas, intimidar pessoas consideradas adversárias, planejar emboscadas e até mesmo ocultar informações da internet que seriam desfavoráveis ao entorno do banqueiro. “Foi cadastro (sic) negócio lá da Assets (sic). Não tem IP [inquérito policial] ainda, só NF [notícia de fato]”, diz uma mensagem enviada a Mourão e repassada por ele a Vorcaro. O autor original da mensagem não é identificado no relatório da PF. Alto risco O resumo do procedimento destacava a matéria publicada em 12 de julho de 2024 pelo blog, que revelou que técnicos da Caixa Asset, o braço de gestão de ativos do banco estatal, alertaram em parecer sigiloso que o Banco Master não tinha “clareza, efetividade e consistência em seus números”, com um modelo de negócios de “difícil compreensão” e “alto risco de solvência para a instituição”. As letras financeiras emitidas pelo Banco Master que a Caixa Econômica Federal considerava comprar previam uma rentabilidade de 130% do CDI ao ano no prazo de 10 anos, muito acima da média do mercado. Os temores dos técnicos da Caixa se confirmaram depois, após o Banco Central determinar a liquidação extrajudicial do Master, em novembro do ano passado, e o Supremo aprofundar as investigações de um esquema de corrupção e fraude capitaneado por Vorcaro com aliados de diferentes matizes políticos incrustados nos três poderes. O negócio de R$ 500 milhões não foi concretizado, mas o episódio abriu uma crise sem precedentes na Caixa Asset, repercutiu no mercado financeiro e levou os gerentes Daniel Cunha Gracio, de renda fixa, que assina o parecer, e Maurício Vendruscolo, de renda variável, que também avalizou os documentos, a perderem seus cargos. Também fez a Controladoria-Geral da União (CGU) realizar uma auditoria inédita na Caixa Asset. Extrato Em 30 de julho de 2024, ou seja, duas semanas após a abertura do procedimento no MPF-DF, Mourão volta a tratar do assunto com Vorcaro. “Opa. Bom dia! Tem alguém olhando isso? De ontem, atualização no Caixa Assets (sic)”, escreveu o capanga, ao encaminhar ao chefe um “extrato de documento administrativo” que informava o gabinete da procuradora responsável pelo caso, Luciana Loureiro. O registro do sistema interno do MPF também trazia um resumo em que destacava ser necessário “verificar a necessidade de instauração de inquérito policial”, o que colocou o comparsa de Vorcaro em estado de alerta. “Dá uma olhada nisto com quem esta (sic) por conta de olhar isto para não deixar virar [inquérito policial]. E sanar isto”, escreve Mourão. “"Qial (sic) e esse. Da Caixa?", questiona Vorcaro, já preocupado com o surgimento de diversas frentes de investigação em andamento contra os seus negócios. No final das contas, foi instaurado o inquérito, que tramita sob sigilo na Justiça Federal do Distrito Federal. Acesso privilegiado Um dos pontos destacados pelos investigadores é o de que os documentos encaminhados a Vorcaro sobre o caso Caixa Asset foram acessados por uma servidora pública da Procuradoria da República no Maranhão. “Impõe-se esclarecer se a consulta foi realizada de forma regular, se o acesso foi ilegalmente obtido mediante invasão (“hackeado”) ou se houve franqueamento direto por parte da própria usuária”, ressalta a PF. Em outra troca de mensagens, ocorrida um mês antes do início do procedimento sobre a Caixa, em 18 de junho de 2024, Mourão pediu a Vorcaro para confirmar a lista de pessoas cujos processos sigilosos deveriam ser monitorados. Nela, constavam o empresário e pastor Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro; o pai do banqueiro, Henrique Vorcaro; e Nelson Tanure, apontado pela PF como “sócio oculto” do Master. “Dos seus quais você quer puxe e te envie?”, questiona Mourão. "Todos obviamente”, responde o banqueiro. Três dias depois, Mourão volta a entrar em contato com o chefe: “Me dá um update, se quer alguma coisa. Para puxar o que precisar estamos com acesso total e ilimitado lá [ao sistema interno do MPF], só não sei até quando”. O acesso só ficaria comprometido cinco meses depois, com a prisão do banqueiro no aeroporto internacional de Guarulhos, por ordem da Justiça Federal de Brasília – que, desconfiam os investigadores, também teria vazado.