Coordenador-geral dos grupos era Luiz Phillipi Mourão, o “Sicário”, que se matou após ser preso em Belo Horizonte (MG), diz a PF O esquema criminoso montado por Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, reservava um orçamento de R$ 1 milhão por mês para custear grupos que se infiltravam na estrutura estatal para levantar dados sigilosos e intimidar desafetos do ex-banqueiro. Havia, inclusive, uma política de bônus de fim de ano, pagos conforme a qualidade dos serviços prestados, e férias. As informações estão em relatório da Polícia Federal tornado público nesta terça-feira (16) por decisão do ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo o documento, uma das empresas de Vorcaro, a Super Empreendimentos e participações S.A., cujos operadores financeiros eram Ana Paula Queiroz de Paiva e Fabiano Campos Zettel, cunhado do ex-banqueiro, que assim como ele está preso desde março, fazia os repasses mensais de R$ 1 milhão para a King Participações Imobiliárias Ltda, valor que era rateado entre os grupos. O coordenador-geral dos grupos era Luiz Phillipi Mourão, o “Sicário”, que se matou após ser preso em Belo Horizonte (MG), diz a PF. Entre os grupos de Vorcaro, havia o denominado “A Turma”, cujo líder seria o policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva, que ficava com 40% do total para pagar os seis integrantes deste grupo cooptado, ou seja, R$ 400 mil, “aparentemente todos policiais federais”. Os outros dois grupos eram “Os meninos”, formado por hackers, “para capturar senhas, deletar postagens consideradas desfavoráveis a Vorcaro e, sobretudo, promover notícias e postagens enaltecedoras das pessoas jurídicas vinculadas ao referido empresário”, e “Os editores”. No grupo “Os editores”, segundo a PF, “Sicário” repassava valores, a mando de Daniel Vorcaro, para proprietários de sites de notícias e editores para deixar de publicar notícias negativas sobre o Banco Master. Haveria pagamento mensal de 50 mil, “conforme consta em trechos de diálogos”. Uma conversa relatada pela PF mostra Roseno reclamando com “Sicário” para não deixar um pedido para em cima da hora porque “A Turma” sairia de férias. Os bônus de fim de ano aparecem no relatório na forma de um pagamento extra feito por Roseno a Anderson Wander da Silva, na ativa da PF do Rio de Janeiro. De acordo com o relatório, o aposentado pede a Wander a chave pix para “enviar uma oferenda”. “No dia posterior (01/01/2026), Wander envia uma mensagem de áudio aparentando estar agradecido com o valor recebido, não sendo possível, contudo, nesse momento, precisar o valor enviado”, descreve o relatório. “Tal pagamento é compatível com o bônus de final de ano pago por Daniel Vorcaro e repassado ao núcleo “A Turma” pelo trabalho prestado.” O material da PF detalha também conversa de Roseno com o pai de Daniel, Henrique Vorcaro - que também está preso -, sobre o pagamento de R$ 400 mil combinado, e ele retruca dizendo que “o ideal seria o envio de R$ 800 mil”. A conversa descrita pela PF tem ainda momentos tensos após a deflagração da primeira fase da Compliance Zero, em que Roseno reclama de pagamentos em aberto e responde: “Nos ajude para podermos lhe ajudar”. Henrique menciona que conseguiu “um pouco” e “que conseguiria mais um pouco”. “Em outro diálogo, Roseno afirma que os líderes da organização criminosa já teriam os recursos suficientes, mas estaria “faltando boa vontade” para arcar com o compromisso. “Tais circunstâncias evidenciam a negociação da função pública como ativo de troca, consolidando um cenário de aparente promiscuidade entre interesses públicos e privados”, diz o relatório da PF. Felipe Vorcaro, primo de Daniel Vorcaro, que também está preso, também tinha papel central na execução das movimentações, “atuando como responsável direto pela operacionalização dos ajustes financeiros ilícitos”, afirma o relatório. Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como "Sicário" de Vorcaro — Foto: Reprodução/O Globo