Se gostas de passar noites em salas de espectáculos suadas, é provável que já te tenhas deparado com o cabelo colorido de Mariana Vargas. Se calhar, o nome da artista não te diz nada, mas poderás já ter visto vídeos do seu alter-ego virtual Mariana & os Dramas —ou até fazer parte das dezenas de milhares de seguidores que o seguem.Depois de meses a partilhar pequenos vídeos verticais onde anunciava a sua estreia no mundo da música, no final de Setembro, finalmente ouvimos Reza a Santo António, o seu primeiro single, um indie rock a piscar o olho à tradição das Riot grrrl. Além disso, Mariana é parte da Saliva Diva, a editora de música independente onde faz edição de discos, produção de eventos, curadoria e candidaturas a apoios culturais.A ligação às artes vem de longe — já fazia ballet aos três anos —, mas a vontade de criar música em nome próprio é recente. “Antes da pandemia achava que ia apenas ser intérprete”, diz ao P3. “Tinha vontade de fazer algo além do trabalho.”

Mariana Vargas

Nuno Ferreira Santos

Esta necessidade criativa levou a software developer a criar conteúdos, partilhando o que realmente gostava: ir a concertos, procurar festivais pequenos, descobrir bandas fora do radar. Ao mesmo tempo, compunha música e delineava o seu projecto artístico. “Um mundo ia apoiando o outro. O meu projecto conseguiu avançar graças a isso.”Apesar de existirem em circuitos diferentes, foi também no contexto das redes sociais que Catarina Filipe começou a partilhar as suas músicas. Depois de se dar a conhecer ao público a partilhar vídeos de lifestyle no YouTube, estreou-se o ano passado nos álbuns de longa-duração, com Ride or Die, canção que está entre o pop e o R&B.Embora não funcione numa “linha recta”, a cantora de 31 anos reconhece que existe uma ligação entre estes dois mundos. “As redes foram o espaço onde me dei a conhecer e onde desenvolvi a minha forma de comunicar e de contar histórias”, conta. “A música nasce dessa mesma vontade de expressão, mas com outra profundidade. No digital tudo acontece rápido, mas na música existe tempo para construir, explorar e ir mais longe.”Existem vantagens em existir nestas esferas online, notam, como a democratização da comunicação dos artistas. “Antes precisavas de ter uma estrutura por trás de ti. Agora é algo que podes fazer e controlar por ti próprio. Não dependes do dinheiro de uma grande editora”, explica Mariana Vargas.Embora isto permita conquistar uma nova audiência, existe um lado menos glamoroso. “É mais uma responsabilidade, mais trabalho, e é uma relação que pode ser prejudicial se tiveres um burnout ou se ainda não encontraste uma maneira de comunicar que faça sentido para ti”, alerta.Esta relação gera uma co-dependência entre artistas e redes sociais: uma não pode existir sem a outra. Uma música não pode existir sem ser partilhada numa plataforma de streaming. Um concerto não pode existir sem ser partilhado numa story do Instagram. Embora nenhuma das artistas se sinta “acorrentada” a estes mundos, não deixam de encontrar alguma verdade nestas afirmações.“O digital foi o meu ponto de partida, mas a música tem um ritmo completamente diferente. Precisa de espaço, introspecção e tempo para respirar. Isso não pode estar sempre sujeito à urgência do online. Tenho aprendido a criar limites para que cada área tenha o seu lugar: o digital aproxima-me das pessoas, e a música é onde aprofundo quem sou artisticamente”, resume Mariana.Dependentes do algoritmoO produtor e rapper João Maia Ferreira, anteriormente conhecido como Benji Price, tem uma visão mais extrema sobre este assunto. “As redes oferecem um alcance impossível de replicar fora da Internet, mas essa vantagem vem com a condição de estarmos dependentes delas”, reflecte.