Em junho de 2025, quase R$ 20 bilhões em carteiras de crédito compradas vieram da instituição de Daniel Vorcaro 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa (à esq.) e o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro — Foto: Fotos de Renato Alves/Agência Brasília e Ana Paula Paiva/Valor Perícia técnica realizada pela Polícia Federal (PF) apontam que o Banco de Brasília (BRB) chegou a ter 90,3% de suas carteiras de crédito adquiridas de outras instituições vendidas pelo Master. A análise realizada em agosto deste ano mostra que no pico, verificado em junho de 2025, chegou a R$ 19,8 bilhões. Ao longo dos meses seguintes, a participação foi caindo e encerrou o ano com 76,4%, já com o Master liquidado pelo Banco Central. “A participação desse cedente (Master) variou de 69,84% (março) a 90,31% (junho), com média aritmética mensal de 80,46%; superou 75% em nove das doze competências e atingiu ou excedeu 80% em seis delas. A persistência desses percentuais afasta a hipótese de evento meramente pontual. Entre março e abril, a participação do Master saltou 18,31 pontos percentuais: seu saldo cresceu R$ 7,16 bilhões (+70,9%), enquanto o conjunto dos demais cedentes recuou R$ 2,04 bilhões (-46,8%)”, diz o relatório. O documento disponibilizado com a abertura de sigilo dos processos do Master, determinada pelo presidente do STF, Edson Fachin, mostra que em parte do tempo na relação entre as duas instituições, o banco do DF, então presidido por Paulo Henrique Costa, que está preso, realizou R$ 7,6 bilhões em operações antes de os ritos internos e conclusões técnicas serem cumpridas. “O pagamento anterior à própria deliberação da DICOL e as mensagens que impulsionaram liquidações quando ainda havia governança, substituição, assinatura ou parecer pendente demonstram que a implementação econômica podia anteceder a conclusão do rito. A manifestação posterior completava o processo documental, mas não restituía a oportunidade de rejeitar ou modificar a operação”, diz o documento. Os peritos afirmaram, com base nos documentos recolhidos, que ficou caracterizada a prática de gestão fraudulenta, com as instâncias mais altas do banco pressionando para as operações serem fechadas. Conforme a análise técnica, para agravar o quadro, os pareceres necessários às operações foram emitidos posteriormente. “Por essas razões, há elementos técnicos e documentais suficientes, convergentes, materialmente relevantes e reiterados para concluir que o processo de aquisição de carteiras do Banco Master foi conduzido, no âmbito examinado, por práticas de gestão fraudulenta, caracterizadas pela manipulação da sequência de governança, pela burla material ao regime de alçadas, pela formalização retrospectiva de controles e pela continuidade objetiva das operações apesar de alertas prudenciais e fragilidades concretamente”, afirmam. O relatório também avalia a tentativa de compra do Banco Master pelo BRB. A perícia destaca que pareceres internos do BRB indicaram diversos fatores de risco para a operação, que não se concretizou por conta da negativa do Banco Central. Os documentos mostravam que o Master tinha uma série de “complexidades”, que, na verdade, eram fragilidades relevantes. Três pareceres de 2024 destacaram que a instituição operava com caixa abaixo da média da amostra, inferior a 10% dos depósitos, e tinha nas plataformas distribuidoras sua principal fonte de captação. “Em síntese, o BRB já dispunha de percepção prudencial interna questionável sobre a contraparte formalizada sobre cinco eixos: crescimento acelerado, capitalização sensível, complexidade do modelo de negócios, liquidez e funding do Banco Master e baixo nível de caixa associado à dependência de plataformas distribuidoras. Esses registros não demonstram, isoladamente, insolvência ou inadimplemento, mas elevavam o padrão de diligência exigível para operações materiais, recorrentes e concentradas com a contraparte.” A operação foi negada pelo Banco Central em setembro de 2025. Outros materiais liberados hoje pelo STF mostram a atuação de dois servidores da autoridade monetária, Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana, que comandavam o departamento de Supervisão Bancária, em favor de Daniel Vorcaro. Em uma das peças, há menções até a preparações para reuniões de Vorcaro com o ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto e com o diretor de Fiscalização do BC, Ailton Aquino.