Paulo Souza e Belline Santana teriam orientado o dono do Master sobre assuntos de interesse do Banco Master dentro da autoridade monetária 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 A Polícia Federal afirma, em relatórios tornados públicos nesta sexta-feira (11), ter encontrado uma relação de proximidade entre Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, e dois integrantes da cúpula da supervisão bancária do Banco Central (BC), Paulo Sérgio Neves de Souza, então chefe-adjunto do Departamento de Supervisão Bancária (Desup), e Belline Santana, chefe do departamento. Segundo o texto, os dois prestavam uma espécie de “consultoria informal” ao controlador do Master, com orientações sobre assuntos de interesse do banco, revisão de documentos destinados ao próprio BC e ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e interlocução em questões regulatórias e empresariais. Os três chegaram a manter um grupo de WhatsApp chamado “Master”, criado em outubro de 2025 para facilitar as conversas. No relatório, a PF afirma ter identificado pagamentos de Vorcaro a Belline, que teriam sido disfarçados por meio de um contrato de prestação de serviços e que teriam chegado a R$ 760 mil por mês. Segundo a investigação, as conversas sobre os repasses começam em dezembro de 2023, quando Vorcaro e seu cunhado, Fabiano Zettel, articulam uma proposta de trabalho para Belline por meio da Varajo Consultoria Empresarial, de Leonardo Palhares. Formalmente, o servidor seria contratado para participar da elaboração de um estudo sobre a inserção de jovens no mercado financeiro. Para a PF, porém, o contrato teria sido usado para dar aparência regular aos pagamentos feitos ao servidor. As mensagens destacadas pela PF mostram que a proposta foi revisada por Vorcaro e Zettel antes de ser enviada ao e-mail pessoal de Belline. Depois que o servidor respondeu aceitando os termos do contrato, Zettel encaminhou a mensagem a Vorcaro, que comentou: “Que circo”. Para os investigadores, a conversa reforça a suspeita de que a prestação de serviços teria sido simulada para justificar os repasses. A investigação afirma ainda que havia preocupação em evitar que os recursos fossem pagos diretamente pelo Banco Master. Em uma das conversas, Vorcaro determina que o dinheiro deveria sair de “Leo”, identificado pela PF como Leonardo Palhares, para Belline, e que posteriormente faria o reembolso. Em outro diálogo, Zettel descreve um fluxo que partia do Master para a Super Empreendimentos e, posteriormente, chegava a Belline. A PF também aponta a participação de Ana Claudia Queiroz de Paiva, registrada nos contatos de Vorcaro como “Ana Claudia Financeiro”, na operacionalização dos pagamentos. Segundo a PF, as conversas entre Vorcaro e Zettel tratam de pagamentos periódicos a Belline entre 2023 e 2025. Em 2 de outubro de 2024, uma conversa entre Vorcaro e Zettel indica que parte dos recursos enviados a Leonardo Palhares tinha Belline como destinatário final. Na troca de mensagens, Zettel aponta R$ 760 mil destinados ao então chefe do Desup. Os investigadores afirmam que Palhares e sua empresa, a Varajo Consultoria, eram usados como intermediários dos pagamentos ao servidor. As conversas analisadas pela PF apontam repasses periódicos a Belline entre 2023 e 2025. Os investigadores também localizaram, em controles de “despesas fixas mensais” compartilhados entre os dois, um registro de R$ 500 mil destinado ao servidor. Em outra conversa reproduzida na representação, Palhares se refere a Belline como “aquele amigo que contratei um estudo dele” e diz a Vorcaro que iria mantê-lo “próximo” e “acalmá-lo”. A PF também aponta despesas bancadas por Vorcaro durante uma passagem de Belline por Paris. Segundo a representação, o banqueiro determinou a um prestador de serviços que providenciasse almoço, jantar e um guia para o servidor na capital francesa. Os investigadores tratam essas despesas no exterior como parte das vantagens supostamente concedidas a Belline. Em fevereiro de 2024, segundo os investigadores, Vorcaro recebeu o roteiro de uma viagem particular de Paulo Sérgio e de sua família à Disney, conforme o Valor informou em 27 de agosto, e o encaminhou a um prestador de serviços, a quem pediu a contratação de um guia. Paulo Sérgio teria depois confirmado ao banqueiro que fora procurado pelo prestador e agradecido o favor. De acordo com a PF, Paulo Sérgio também antecipava a Vorcaro informações sobre reuniões no Banco Central. Em fevereiro de 2024, antes de um encontro do banqueiro com o diretor de fiscalização, Ailton Aquino, o então chefe-adjunto do Desup teria avisado que Vorcaro deveria ser questionado sobre suas relações com a Reag e João Carlos Mansur. Em outro episódio, após agradecer a Vorcaro por um favor relacionado à viagem à Disney, Paulo Sérgio antecipou uma reunião agendada na autarquia e os assuntos que seriam tratados. A PF classifica a atuação do servidor como uma espécie de consultoria ao controlador do Master. A proximidade aparece também em uma conversa de Vorcaro com o cunhado, Fabiano Zettel. Ao ser informado por Zettel de que encontraria Paulo Sérgio e questionado se havia alguma recomendação, Vorcaro respondeu que deveria “tratar ele bem” e acrescentou: “Tá sendo um anjo na vida”. Para a PF, a conversa demonstra o reconhecimento, pelo próprio banqueiro, do apoio que vinha recebendo do então chefe-adjunto da supervisão bancária do Banco Central. Belline (à esq.) e Souza foram supostamente cooptados no BC por Vorcaro — Foto: Vinicius Loures/Câmara dos Deputados
‘Um anjo na vida’: Mensagens de Vorcaro mostram pagamentos e viagens a servidores do BC em troca de ‘consultoria’
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