País não é mais a superpotência imbatível do início do século, e divisões internas acentuadas pela destruição em Nova York e Washington são feridas abertas 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Nomes de vítimas dos ataques de 11 de Setembro em 2001 no memorial onde ficavam as torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York — Foto: Kena Betancur / AFP “Os Estados Unidos estão sob ataque”, declarou silenciosamente um assessor no ouvido do presidente dos EUA, George W. Bush, na manhã de 11 de setembro de 2001, interrompendo uma sessão de leitura em uma escola e arrastando o republicano para um voo sem destino a bordo do Air Force One. Naquele momento, o território americano era cenário do maior ataque terrorista da História, hoje encarado como um marco de um complexo processo de mudanças no ethos americano dentro de suas fronteiras e diante dos olhos do mundo. Após 25 anos, ele ainda parece longe do fim. — Não faremos distinção entre os terroristas que cometeram esses atos e aqueles que lhes dão abrigo — disse Bush em seu primeiro pronunciamento à nação, horas depois de aviões atingirem o World Trade Center, em Nova York, o Pentágono, em Washington, e um terceiro cair em uma área rural na Pensilvânia, deixando 2.977 mortos. — Os Estados Unidos e nossos amigos e aliados unem-se a todos aqueles que desejam paz e segurança no mundo, e permanecemos juntos para vencer a guerra contra o terrorismo. Era o primeiro movimento da Guerra ao Terror, que levou as tropas americanas a um conflito de duas décadas no Afeganistão, serviu como pretexto para bombardeios contra ao menos dez países e legitimou um ataque que, por capricho do destino ou falta de planejamento, daria fôlego sem precedentes ao terrorismo islâmico: a invasão do Iraque, em março de 2003. Sob o no falso pretexto de que o regime de Saddam Hussein guardava estoques de armas de destruição em massa, as tropas americanas derrubaram o ditador em semanas, mas abriram caminho para uma guerra civil e o surgimento de organizações tão radicais que até a al-Qaeda, responsável pelo 11 de Setembro, tentou se afastar. Destroços após ataques ao World Trade Center, em 11 de setembro de 2001 — Foto: Doug Kanter/AFP A mais conhecida e infame delas, o Estado Islâmico, assumiu um vasto território no início da década passada, impondo uma versão sangrenta da lei islâmica, e patrocinou alguns dos atentados mais violentos do século XXI. Massacres deixaram milhares de mortos de Paris a Teerã, e ataques cometidos pelos chamados “lobos solitários”, indivíduos radicalizados por redes sociais e recrutadores, espalharam o medo pelo mundo. Hoje, embora enfraquecido por anos de ofensiva no Oriente Médio, o grupo segue ativo no Afeganistão e no "Paquistão, com o mesmo grau de brutalidade. — Os ataques do 11 de Setembro uniram o mundo em solidariedade aos Estados Unidos. Se Washington tivesse respondido com sabedoria a esses atentados, poderia ter fortalecido sua liderança global e retardado a erosão de sua hegemonia — destacou ao GLOBO Stephen Wertheim, pesquisador sênior do Fundo Carnegie para Paz Internacional. — Em vez disso, as guerras travadas pelos Estados Unidos na região do Grande Oriente Médio aceleraram o declínio do país. Videográfico: Os atentados de 11 de setembro De acordo com o Projeto Custos da Guerra, da Universidade Brown, quase um milhão de pessoas morreram em decorrência da violência pós-11 de Setembro no Iraque, Paquistão, Síria, Iêmen e Afeganistão entre 2001 e 2023, um número que salta a mais de 4,5 milhões se incluídas as mortes ligadas aos efeitos "secundários" dos conflitos. Entre as vítimas, figura também a imagem dos EUA como uma força indispensável, como descreveu no final dos anos 1990 a ex-secretária de Estado Madeleine Albright, à segurança mundial. — Ao usar o termo, Albright queria dizer que os Estados Unidos tinham o direito e a responsabilidade de fazer valer a lei e a ordem internacionais conforme julgassem adequado, pois o país não era apenas a nação mais poderosa, mas também a mais esclarecida e dotada de maior visão de futuro — explicou Wertheim. — Hoje, os Estados Unidos continuam extremamente poderosos, mas nem mesmo muitos americanos acreditam que seu governo aja com inteligência no cenário mundial. Ataque a Torres Gêmeas, em Nova Yok, em 11 de Setembro de 2001 — Foto: Nicole Bengiveno/New York Times A posição de potência global única, herdada do pós-Guerra Fria, já era questionada quando os aviões atingiram as torres e o Pentágono. Naquele 2001, a China entrou para a Organização Mundial do Comércio, superando 14 anos de negociações e pavimentando sua rota de crescimento econômico e político e a atual posição de competidor (ou rival em igualdade de condições) dos americanos. O apoio inicial à invasão do Afeganistão — a única vez em que a cláusula de defesa mútua da Otan foi acionada — reuniu desde europeus até a Rússia, que cogitou unir-se à aliança militar, mas começou a ruir diante da "era das guerras eternas", travadas por democratas e republicanos. A pouca disposição (ou incapacidade) de Washington de impedir aventuras armadas, especialmente a invasão russa da Ucrânia, em 2022, obrigou muitos países a pensarem em estratégias para garantir a própria segurança. A saída dos EUA da Otan, algo impensável há alguns anos, já é tratada como possibilidade real, diante da aversão pública de Donald Trump à organização e a acertos prévios de defesas com aliados históricos. — Trump tirou a lição errada da resposta dos EUA ao 11 de Setembro: ele achava que os Estados Unidos haviam sido generosos demais com outros povos, sem zelar pelos seus próprios interesses. Como resultado, Trump agora recorre à violência e à coerção sem qualquer restrição, visando à exploração predatória descarada — destaca Wertheim. — No entanto, o governo Bush sempre esteve mais interessado em exercer o poder americano de forma agressiva do que em fazer sacrifícios para libertar outros. Membros das forças armadas e socorristas fazem continência enquanto uma bandeira americana é estendida ao lado do Pentágono para comemorar o 21º aniversário dos ataques terroristas de 11 de setembro — Foto: AFP No clássico “Ulisses”, de James Joyce, o personagem Stephen Dedalus afirma que “um homem de gênio não comete erros; seus equívocos são deliberados e constituem as portas para a descoberta”. Uma frase que poderia ser usada por Trump (autointitulado “um gênio muito estável”) para descrever a decisão de lançar a guerra contra o Irã, em fevereiro, sem objetivos claros e sem fim à vista. Um conflito impopular e que cruzou linhas que nem mesmo Bush avançou na invasão do Iraque, frequentemente comparada à "Operação Fúria Épica". — O governo federal compreendeu [após o 11 de Setembro] que o presidente deve conduzir guerras por conta própria, sem solicitar o apoio do Congresso. Isso é algo totalmente novo — afirmou ao GLOBO Kevin Schultz, chefe do Departamento de História da Universidade de Illinois em Chicago. — A guerra no Irã já dura seis meses, mas Trump não deu informações ao Congresso ou obteve aprovações. Antes da Guerra ao Terror, isso teria sido considerado flagrantemente inconstitucional. Internamente, o 11 de Setembro moldou profundamente a sociedade americana. O fantasma do terrorismo abriu caminho para o estabelecimento de órgãos como o Departamento de Segurança Interna, hoje usado por Trump para conduzir políticas questionadas, como a ofensiva anti-imigração. O avanço do monitoramento dos cidadãos, sob pretexto de proteção nacional, cruzou limites considerados aceitáveis, e com frequência foi comparado ao modelo do Grande Irmão da distopia “1984”, de George Orwell. Empoderada e financiada, a Agência de Segurança Nacional (NSA) invadiu redes, computadores e telefones de milhões de pessoas, incluindo chefes de Estado: em 2015, o portal WikiLeaks revelou que telefones da então presidente brasileira, Dilma Rousseff, foram monitorados, provocando uma crise diplomática com o governo de Barack Obama. — Logo depois do 11 de Setembro, eu e colegas historiadores não queríamos que o governo federal soubesse que livro pegamos emprestado na biblioteca — destaca Schultz. — Hoje, isso parece banal. Eles sabem que sites nós visitamos, monitoram seu carro na rua… e me chamou a atenção o fato de que 100 milhões de americanos nascidos após os ataques acreditam ter vivido apenas sob um Estado vigilante. Ambulância coberta por cinzas e destroços das torres gêmeas do World Trade Center, após ataques de 11 de Setembro de 2001 — Foto: DOUG KANTER / AFP A islamofobia deu novos traços a divisões raciais e sociais que antecedem em séculos os ataques, impulsionadas por teorias da conspiração propagadas pelas redes sociais. O ódio ao outro, associado a episódios sangrentos, passou a ser celebrado em praça pública, com bandeiras e fuzis à mostra. A divisão ficou à mostra até nos preparativos para a cerimônia de 25 anos dos ataques em Nova York, com pedidos de parentes das vítimas para que o prefeito Zohran Mamdani, muçulmano e expoente da ala socialista do Partido Democrata , não compareça. Ele tinha 9 anos quando as torres desabaram. Como destacou Schultz, mais de 100 milhões de pessoas que vivem hoje nos EUA nasceram depois dos ataques. Um número igualmente considerável sequer se lembra das imagens de horror na TV. Destacar seus impactos, assim como as lições por eles deixadas (e por vezes ignoradas), se torna uma tarefa mais difícil a cada ano.
25 anos depois: Resposta dos EUA aos ataques do 11 de Setembro acelerou erosão da hegemonia americana
País não é mais a superpotência imbatível do início do século, e divisões internas acentuadas pela destruição em Nova York e Washington são feridas abertas













