Uma linguagem sobre o inimigo, a ameaça, a segurança e o uso da força ganharam impulso depois daquele dia 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Ataque às Torres Gêmeas, em Nova Yok, em 11 de Setembro de 2001 — Foto: Nicole Bengiveno/New York Times Eu tinha acabado de voltar da academia. Era um daqueles dias de Nova York feitos para que nada de ruim acontecesse: céu azul, ar fresco, luz transparente. Liguei a televisão, alto, a caminho do banho. Parei. Havia um buraco enorme numa torre do World Trade Center. Fogo. Fumaça. A primeira informação dizia que um avião pequeno havia atingido o prédio. Não fazia sentido. O telefone tocou. Era a redação da TV Globo. Uma equipe viria me buscar. Seguiríamos a pé. Outro avião apareceu na tela. Atravessou a imagem. Penetrou na segunda torre. Explodiu. Dessa vez, só havia uma explicação. Eu estava vendo um ataque. Vinte e cinco anos depois, é dessa cena que preciso partir. Não para contar novamente aquela manhã. O que me interessa é outra coisa: o que aquele 11 de setembro fez conosco. E o que nós fizemos depois dele. Eu era jornalista. Podia chegar perto, perguntar, investigar, testemunhar. Não tinha poder. Ver não é poder. Compreender não é poder. Contar não é poder. Eu podia estar diante da História, mas não podia fazê-la recuar. Tinha uma câmera, um microfone e palavras. Os quase 3 mil mortos daquele dia receberam nomes, fotografias e memoriais. Mas a história não terminou em Nova York. A resposta americana levou à guerra no Afeganistão e, em 2003, à invasão do Iraque. Desde 2001, o Pentágono gastou mais de US$ 14 trilhões. O projeto Costs of War, da Brown University, estima de 4,5 milhões a 4,7 milhões de mortes diretas e indiretas nos conflitos da Guerra ao Terror, além de mais de 38 milhões de deslocados. É uma estimativa. Ainda assim, grande demais para ser ignorada. Não são mortes equivalentes. Mas há uma pergunta que não podemos evitar: o que fizemos depois? Os terroristas que atacaram os Estados Unidos foram responsáveis pelo crime. Não há outra maneira de dizer isso. Mas algumas coisas vieram da resposta ao crime. Lembrei o filme “Alien”: o monstro é gerado no ventre dos próprios heróis. O primeiro estava nos aviões. Outros vieram depois. O 11 de Setembro entrou na vida de quem nunca esteve numa guerra: aeroportos, controles, câmeras, fronteiras. Entrou no modo como olhamos para o outro. “Segurança” passou a justificar medidas antes difíceis de explicar. O medo deixou de ser consequência do terrorismo. Passou a ser também uma ferramenta. Vinte e cinco anos depois, ainda vivemos essa lógica. A História não funciona em linha reta. Gaza não nasceu no 11 de Setembro, e a guerra entre Estados Unidos e Irã em 2026 não é simplesmente uma continuação da guerra contra a Al Qaeda. Mas uma linguagem sobre o inimigo, a ameaça, a segurança e o uso da força ganharam impulso depois daquele dia. Durante 21 dias, fui ao local das torres todos os dias. Vi famílias procurando parentes, policiais e bombeiros trabalhando entre restos de filhos e irmãos. Uma cidade tentando continuar enquanto ainda havia fumaça onde antes existiam as torres. E havia o cheiro. Durante muito tempo não escrevi sobre ele: o cheiro de carne humana queimada. Ainda hoje não sei onde guardá-lo. Há uma diferença entre contar o que aconteceu e conseguir se livrar do que aconteceu. O jornalista pode registrar e preservar. Mas não pode ressuscitar mortos, impedir uma bomba ou mandar um general recuar. Ver não é poder. Compreender não é poder. Contar não é poder. Há mortos que ganham nomes. Há mortos que ganham monumentos. E há mortos que desaparecem. Milhões morreram sem que seus nomes fossem conhecidos por nós: no Afeganistão, no Iraque, na Síria, no Iêmen, no Paquistão. Muitos morreram como consequência indireta: fome, doenças, destruição, deslocamento. É por isso que os números importam. Uma estatística não pode devolver uma vida. Mas porque, sem ela, milhões de vidas podem desaparecer duas vezes: primeiro pela guerra, depois pelo esquecimento. Volto então àquela manhã. Ao homem que tinha acabado de voltar da academia. À televisão ligada antes do banho. Eu não sabia que o século XXI estava começando. Sabia apenas que algo terrível acontecia a poucos quarteirões dali e que meu trabalho era chegar perto e contar. Eu era jornalista, mas antes disso, um homem comum diante de poderes que não podia controlar. Não fui presidente, general. Não decidi guerra, não ordenei invasão. Eu vi. Depois tentei compreender. Depois contei. Essa é a condição de quem testemunha a História: perto o bastante para enxergá-la, longe demais para modificá-la. Ver não é poder. Compreender não é poder. Contar não é poder. É pouco diante de uma potência militar. É o que um homem comum tem. *Edney Silvestre, escritor e jornalista, foi o primeiro repórter brasileiro de TV a chegar ao World Trade Center após os atentados. A experiência está contada nos livros “Outros tempos” e “Vidas provisórias”