Na Polymarket, corrida presidencial no país fica em terceiro no ranking global. Para analistas, movimento eleva interesse de investidores por papéis locais 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Painel da B3, a Bolsa de São Paulo — Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo O mercado financeiro brasileiro se descolou do dia negativo no exterior e encerrou a quinta-feira em tom positivo, mesmo em um cenário de petróleo a US$ 107 o barril, que aumentou as preocupações com os impactos na inflação e o caminho dos juros globais. O dólar caiu para R$ 5,10, e o Ibovespa avançou 1,42%, aos 188.269 pontos. Para analistas, novas pesquisas eleitorais demonstrando acirramento entre Lula e Flávio Bolsonaro em eventual segundo turno, com o senador fluminense numericamente à frente em algumas das sondagens, contribuíram com a leitura positiva. Além disso, a alta do petróleo beneficia o Brasil, exportador de óleo cru, aumentando as receitas do país em dólares e valorizando as ações de petroleiras nacionais, especialmente a Petrobras. O mercado brasileiro voltou a atrair investidores externos em meio a análises que passaram a recomendar “comprar Brasil”, e o saldo de investimentos estrangeiros na Bolsa aumentou significativamente no último mês. Para além do cenário eleitoral já desenhado ao longo da semana, a virada súbita e com diferencial relevante nas apostas eleitorais na plataforma de preditivos Polymarket pode ter contribuído para a busca de ativos brasileiros ontem. Nela, é possível negociar contratos sobre o desfecho de eventos reais, como eleições, decisões políticas, indicadores econômicos, eventos esportivos e premiações culturais. Indicadores financeiros — Foto: Criação O Globo Retroalimentação O país só perdia para as apostas envolvendo os times do futebol PSV e Roma, que jogaram ontem na Liga dos Campeões da Europa. O Brasil figurava acima até das apostas sobre as eleições de meio de mandato americanas. Para Fernando Siqueira, chefe de pesquisa na casa de análise Eleven Financial, há uma retroalimentação entre pesquisas, apostas e o efeito positivo em ações e câmbio: — As coisas se retroalimentam: as pesquisas da semana mostram aproximação (entre Lula e Flávio). E há o noticiário de crise no STF, que também não é positivo para Lula. E aí há um aumento nas apostas. Quem faz aposta compra ações e quem vê a aposta melhorando começa a comprar ações também. É uma coisa que retroalimenta outra, e se cria uma euforia em um dos cantos. Mas é tudo interligado e vira essa correria para comprar — explicou. Na avaliação de Luiz Figueiredo, ex-diretor do Banco Central e conselheiro da Jubarte Capital, o movimento no mercado preditivo, ainda que relevante e impactante para um único dia, é reflexo de uma percepção que já atinge os agentes econômicos há algumas semanas. — Como um indicador para elevar o apetite de mercado, sem dúvida (as apostas preditivas) influenciam, totalmente. Ainda mais com o mercado lá fora na contramão. Mas o que estamos vendo é mais uma constatação do que propriamente uma novidade — afirma ele. Desde 20 de agosto, o investidor externo já aportou R$ 11,1 bilhões no mercado de capitais do Brasil. A avaliação de que as cotações das ações de empresas brasileiras continuam “descontadas” (baratas) contribui para o retorno dos estrangeiros, que tinham promovido uma saída firme do mercado brasileiro no início do mês passado. Plataformas de mercados preditivos já são conhecidas em eleições desde 2008, quando sistemas estimavam a vitória de Barack Obama na eleição presidencial americana. Em 2024, o bilionário Elon Musk, dono da Tesla e do X, chegou a afirmar pela rede social que os mercados de previsão eram referências melhores do que as tradicionais pesquisas de institutos consolidados. No Brasil, o Polymarket e outras concorrentes, como a Kalshi, estão proibidas de atuar desde abril após a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) reforçar que apostas no mercado de derivativos só podem ter como ativos subjacentes produtos com referenciais econômico-financeiros. Esse mercado é regulado pela CVM, mas as plataformas criam derivativos de todo o tipo de estimativas para além dos financeiros, como vencedores de reality show, votos em temas do Congresso e até mesmo a probabilidade de vitória de um ou outro time de futebol em competições. ‘Apostas’ no exterior Frederico Nobre, gestor de ações da Warren, afirma que as pesquisas eleitorais, o noticiário e as apostas no mercado preditivo afetam o “sentimento e percepção dos investidores institucionais”, que realizam investimentos em grandes volumes. Ele destaca que a percepção da maior parte dos agentes do mercado financeiro é que o candidato da oposição, por mais que ainda não haja um plano concreto, tem mais chances de mudar a trajetória entre a dívida e o PIB: — O mercado lê a alternância como uma expectativa sobre a (dinâmica da) trajetória da dívida pública, e na capacidade de se exercer a política monetária com um certo alívio, afetando a curva de juros. O volume de opções de compra do EWZ, principal fundo de índice (ETF) de ações brasileiras negociado em Nova York, saltou cerca de 86% em menos de duas semanas, de 2,8 milhões de contratos em 24 de agosto para 5,2 milhões na última sexta-feira. É o maior patamar desde 2007.