A pouco mais de dois meses da eleição presidencial, o tema deixou de ser distante para os investidores estrangeiros. Nas últimas semanas, bancos internacionais passaram a mencionar com mais frequência o cenário político brasileiro como um fator relevante para a precificação dos ativos domésticos. Na prática, há uma redução no entusiasmo dos agentes financeiros com apostas estruturais na valorização do real — até então um “queridinho” dos mercados globais —, ao mesmo tempo em que há um reforço na postura mais seletiva em relação ao Brasil. O comportamento dos estrategistas do Société Générale ajuda a exemplificar a mudança no sentimento com os ativos domésticos. Na semana passada, o banco encerrou duas posições que apostavam na valorização do real — contra o euro e o peso chileno —, e apertou os níveis de “stop” de posições no mercado de juros a fim de evitar grandes perdas caso as taxas futuras disparassem por algum motivo. E, na justificativa para as mudanças no posicionamento que envolve os ativos domésticos, o banco mencionou de forma direta a proximidade das eleições. Phoenix Kalen, do Société Générale, encerrou posições compradas em real diante de proximidade da eleição presidencial no Brasil — Foto: Reprodução/BloombergTV “Nós rebaixamos a nossa posição no mercado de câmbio do Brasil para ‘neutra’, já que a possibilidade de uma política fiscal mais frouxa antes das eleições e um mercado potencialmente subestimando uma vitória de Lula tornam a moeda menos atrativa no curto prazo”, afirma a chefe global de pesquisa em mercados emergentes do Société Générale, Phoenix Kalen, em relatório enviado a clientes. Na visão do banco francês, o mercado tem subestimado a chance de reeleição do governo. O Société Générale ainda pondera que, caso o risco político ganhe força e passe a prejudicar de forma clara os ativos brasileiros, é possível que uma mudança da avaliação sobre o real para “ligeiramente ‘bearish’” (pessimista, no jargão do mercado) seja necessária. Desde meados de abril, durante os encontros de primavera do Fundo Monetário Internacional (FMI), a percepção de investidores locais que conversaram com estrangeiros era a de que o cenário eleitoral ficaria em segundo plano em relação a posições nos mercados domésticos. O argumento utilizado era o de que, entre os dois candidatos que figuram no topo de diversas pesquisas de intenção de voto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) representaria “mais do mesmo” na condução da política fiscal, enquanto o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) poderia indicar um cenário mais positivo, ainda que bastante incerto, do ponto de vista da política econômica. Após uma rodada recente de reuniões com investidores estrangeiros, um estrategista observa que uma eventual reeleição de Lula não assusta o grupo, mas gera algum desânimo. “Apesar de eu crer em ajustes pelo lado das despesas no primeiro ano, a maioria acha que virá muito pouco. Mas, ainda assim, não existe nenhuma intenção de sair do país ou de diminuir posições de forma significativa, até porque o Brasil entrega um bom retorno quando comparado com o restante do mundo e, embora os fundamentos fiscais sejam ruins, não é um cenário de ‘terra arrasada’.” É nesse sentido que, para esse estrategista, ainda há uma visão mais propositiva dos estrangeiros do que dos investidores locais, que se mostram mais pessimistas há algum tempo, especialmente diante de divergências quanto à condução da política fiscal pelo governo. O estrategista diz, ainda, que há um desânimo “muito grande” dos estrangeiros com a candidatura de Flávio Bolsonaro, “não apenas pela fragilidade que ele vem apresentando na campanha, mas por não notarem nele nenhum plano concreto pós-eleição, e pela visão de crise institucional e de debates paralelos que podem roubar energia do governo”. Quanto ao interesse em uma terceira via, o entusiasmo dos estrangeiros também é bastante limitado, embora alguns tenham mostrado interesse pelo pré-candidato Renan Santos (Missão), de acordo com o profissional. Os analistas Inigo Vega e Diego Sarmento Pereira, do Jefferies, estiveram no Brasil nos últimos dias e citam essa falta de ânimo dos mercados, especialmente após diversas medidas fiscais e creditícias adotadas pelo governo. Para eles, uma das conclusões da viagem foi “a crescente dependência do governo de medidas não convencionais em meio a uma desaceleração da economia, expectativas de juros reais elevados por um período mais prolongado e a aproximação das eleições”. E, na avaliação dos profissionais do Jefferies, o governo Lula parece menos concentrado em questionar a política monetária e está mais voltado à adoção de medidas de compensação para dar apoio à economia e ao crédito. “Embora nenhuma medida seja, por si só, negativa para o crédito dos bancos, os investidores tendem a questionar não apenas a sustentabilidade desses mecanismos de apoio, mas também se eles poderiam aumentar as chances do cenário eleitoral que, aparentemente, é o menos desejado pelos mercados”, dizem Vega e Pereira. Entre outras casas estrangeiras, o estrategista Alvaro Vivanco, do Wells Fargo, deixou de ver com bons olhos a dinâmica do câmbio doméstico, ao acreditar que o real deve ser deixado de lado diante de uma reversão do “trade” positivo para a moeda brasileira durante a guerra no Irã. Além disso, Vivanco observa que o ruído em torno da eleição e da política fiscal aumentou, “incluindo a melhora significativa do apoio ao presidente Lula nas pesquisas de opinião”. Alvaro Vivanco, estrategista do Wells Fargo, abandonou viés positivo com o real devido às incertezas relacionadas à guerra no Irã e às eleições no Brasil — Foto: Divulgação Esses fatores em conjunto “têm sido particularmente prejudiciais ao real, já que o posicionamento comprado na moeda estava bastante esticado, refletindo uma operação amplamente consensual no mercado, mesmo quando o dólar caiu abaixo de R$ 5”. O estrategista do Wells Fargo acredita que o real voltará a ter valor quando (e se) o dólar ficar ao redor de R$ 5,30, mas diz não ter pressa para voltar a comprar a moeda brasileira antes disso. “Nossa expectativa é de um movimento de alta do dólar frente ao real. Precisamos de maior clareza em relação ao comportamento das commodities, dos juros americanos e da política doméstica”, enfatiza Vivanco. É com base na incerteza política no Brasil que a estrategista Andrea Kiguel, do Barclays, também mantém um tom cauteloso em relação ao mercado local. “Historicamente, presidentes que buscam a reeleição costumam registrar uma melhora significativa em seus índices líquidos de aprovação nos meses que antecedem a disputa eleitoral, e acreditamos que a volatilidade do mercado tende a aumentar à medida que esse processo se desenrola”, alerta Kiguel. Para ela, mesmo se houver uma mudança no comando do governo, “a herança para a próxima administração deverá ser delicada, exigindo a implementação de reformas estruturais ambiciosas”. Kiguel, assim, acredita que o mercado de juros até pode ser beneficiado por um cenário mais favorável, mas diz ser difícil acreditar em um recuo muito intenso e rápido da taxa de juros de equilíbrio, em uma possível limitação para posições aplicadas em juros. No caso do mercado de câmbio, a estrategista projeta um desempenho pior do real em relação a outras moedas “à medida que a eleição presidencial de outubro se aproxima, já que investidores locais e empresas costumam aumentar a compra de dólares quando as disputas são apertadas e os possíveis resultados econômicos são percebidos como binários, como esperamos para a votação de outubro”.