Poucas vezes na nossa história a palavra "crise" foi tão adequada a uma situação. A sequência de desmandos e arbitrariedades pariu um monstro, e o país assiste a instituições dilaceradas pela guerra política, imobilizadas pela perda de legitimidade e vistas pela sociedade como altamente suspeitas de estar penetradas pelo crime.
Estamos sofrendo as consequências de acreditar, e muitos acreditaram, que a salvação da democracia residiria em entregar o poder absoluto a autonomeados salvadores da pátria. Como se pode notar, essa ilusão produziu apenas e tão somente o colapso do sistema de freios e contrapesos. O que nos traz ao cenário em que ninguém sabe direito como desatar o nó.Sem contar a desconfiança, baseada em fatos que precisam ser plenamente esclarecidos, de que esses mesmos salvadores decidiram, em algum momento, monetizar o serviço que acreditavam estar prestando ao Brasil. Não é novo, mas vale sempre repetir: se o poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente. E como sair do beco escuro se as próprias autoridades que deveriam esclarecer os fatos são acusadas de estar enredadas neles?
O país já viveu, no 8 de janeiro, um ataque intolerável às suas instituições. Naquele episódio, pessoas inconformadas com o resultado das urnas recorreram ao vandalismo e atingiram fisicamente as sedes dos Poderes da República. Há, porém, uma diferença perturbadora entre destruir fisicamente a sede de uma instituição e comprometer a confiança depositada nela. No primeiro caso, quebram-se vidros, móveis, obras de arte e edifícios. No segundo, atinge-se algo muito mais difícil de restaurar: a credibilidade, a imparcialidade e a autoridade moral.E é justamente aqui que um voto proferido pelo ministro Alexandre de Moraes em março de 2025 permanecerá como retrato do nosso paradoxo. Ao julgar Débora Rodrigues dos Santos, a "Débora do Batom", Moraes analisou o fato de terem sido apagados dados de seu telefone celular e escreveu que "o ato de apagar dados do celular também indica uma consciência sobre a ilegalidade dos atos praticados pelo agente". Acrescentou que a destruição de provas reforçava a percepção de que "havia algo a esconder". Eis que agora o próprio ministro é suspeito disso.












