Peço aos meus leitores um pouco de paciência neste mês. Ao contrário dos temas que habitualmente ocupam este espaço, não posso ignorar que, em pouco mais de 20 dias, o País estará diante de uma eleição decisiva. Permiti-me, portanto, investigar um tema que atravessa nosso dia a dia com tamanha naturalidade que quase não o percebemos, e que certamente não se encerra num único artigo: a anestesia com que os brasileiros convivem com o ilegal, o malfeito e o prometido jamais cumprido.PUBLICIDADEComeço por uma cena banal e, por isso mesmo, reveladora. O cidadão paga seus impostos, sai de casa para um show, estaciona o carro em via pública e é abordado pelo flanelinha. Todos conhecem o contrato implícito: paga-se pela “proteção” do veículo contra o próprio cobrador. Recusar é arriscar a lataria, às vezes a integridade física. A transação ocorre com frequência diante de policiais que assistem, lenientes, à privatização informal do espaço público. Não se trata de crônica de costumes. Trata-se de um mercado de extorsão operando a céu aberto, com o Estado simultaneamente presente e ausente, e com milhares de vítimas que pagam, dão de ombros e seguem para o estádio.Esse dar de ombros é o tema desta coluna. Não perguntarei o que os candidatos prometem. Perguntarei por que nós, eleitores, toleramos tanto, há tanto tempo, com tamanha naturalidade.'A eleição é o único momento institucional em que a sociedade precifica, ainda que mal, a tolerância que pratica' Foto: Antonio Augusto/Ascom/TSEA lista da nossa leniência é longa e transversal. Bicheiros, grileiros de terra, desmatadores e garimpeiros ilegais, grandes sonegadores e políticos sabidamente corruptos não vivem à margem da sociedade. Circulam na elite dela. Frequentam os mesmos restaurantes, salões e conselhos que suas vítimas difusas, sem qualquer constrangimento, nem da parte deles, nem da parte de quem com eles convive. Prefeitos e governadores entregam obras de papel que não atravessam um verão, descumprem promessas em série e são reeleitos com folga. O contribuinte que financia tudo isso é achacado na saída de casa.Leia tambémO Brasil tem instrumentos; não tem estratégiaA República sem vergonha: anatomia do cinismo brasileiroAs commodities fizeram a sua parte; o Estado brasileiro, nãoFalo de dentro. Fui presidente de duas associações setoriais de âmbito nacional, uma internacional, co-facilitador de uma grande iniciativa multisetorial e secretário executivo do Consórcio dos Estados da Amazônia Legal, e convivi de perto com diversos níveis da política estadual e nacional. Saí frustrado, como sabe quem me conhece. Vi compromissos sérios e muita gente compromissada, mas também vi muito descaso, promessas feitas para não serem cumpridas e coisas piores. Vi muito e pude pouco. Também eu, com cargo e convicção, provei da impotência que anestesia.PublicidadeA tentação é explicar o fenômeno por um defeito moral do brasileiro, uma espécie de vício de caráter nacional. Décadas de ensaio e de pesquisa sobre o tema sugerem algo mais incômodo e mais útil: não somos piores do que ninguém, apenas respondemos racionalmente a um sistema de incentivos que premia a transgressão e não cobra nada pela conivência.Nossos grandes intérpretes mapearam a genealogia. Um deles descreveu o homem cordial, que não é o homem gentil, mas aquele que dissolve a norma impessoal na relação pessoal, para quem a lei vale conforme o vínculo. Outro mostrou o Estado patrimonial capturado como espólio por uma casta que nunca precisou distinguir o público do privado. Coube a Roberto DaMatta dar ao mecanismo sua formulação mais precisa: entre a casa e a rua, entre o indivíduo anônimo submetido à lei e a pessoa protegida por relações, o Brasil criou uma zona cinzenta em que as regras valem ou não dependendo de quem está envolvido. O “sabe com quem está falando?” é a senha de acesso a essa zona.Os dados contemporâneos confirmam os ensaístas e acrescentam um detalhe devastador. Pesquisa de uma das principais escolas de direito do país, que mede periodicamente a percepção do cumprimento da lei, apurou que 82% dos brasileiros consideram fácil desobedecer às leis. Mais revelador: quanto maiores a renda e a escolaridade do entrevistado, pior a percepção sobre o cumprimento da lei e pior o próprio comportamento declarado. O topo da pirâmide transgride mais, não menos. A tese confortável de que a ilegalidade é problema de gente sem instrução não sobrevive ao contato com a evidência. O grileiro e o sonegador de grande porte não são acidentes do sistema. São seus usuários premium.A ciência política brasileira deu nome técnico à nossa anestesia: uma dissonância entre normas morais e prática social. Em abstrato, o brasileiro condena a corrupção com veemência. No cotidiano, convive com ela, negocia com ela e, quando conveniente, pratica suas versões miúdas. Reprovamos no discurso o que absorvemos no convívio. Por isso o corrupto notório não sofre sanção social nenhuma: a condenação moral existe, mas mora em outro andar, que não se comunica com o andar dos jantares e das sociedades. Os estudos e pesquisas que investigaram a cabeça do brasileiro encontraram a raiz dessa duplicidade: quanto mais hierárquica a visão de mundo do entrevistado, maior a adesão ao jeitinho e maior a tolerância com a quebra da regra em benefício próprio ou de conhecidos. A hierarquia funciona como licença moral: se as pessoas não são iguais perante a vida, por que seriam iguais perante a lei? O flanelinha, o policial que finge não ver, o motorista que paga e o desembargador que fura a fila do aeroporto compartilham, sem saber, a mesma premissa.Falta um elo para completar o circuito: por que a urna não corrige nada disso? Duas evidências ajudam. A primeira vem dos levantamentos continentais de opinião pública: o Brasil tem a mais baixa confiança interpessoal da América Latina, na casa de 5%, contra 21% do vizinho Uruguai, enquanto a confiança nas instituições patina abaixo dos 50% da escala há quase duas décadas e atingiu em 2024 seu pior nível em muitos anos, imagina agora. Uma sociedade em que ninguém confia em ninguém não produz indignação coletiva, produz resignações individuais. Cada um administra privadamente sua cota de achaque, como quem paga o flanelinha. A segunda evidência é a desconexão que os pesquisadores da opinião pública identificam há anos: o eleitor não liga o buraco da rua ao voto que deu, não conecta a decisão do governo de seu estado, ou de Brasília, ao cotidiano. Pune o prefeito, o governador reclamando na fila do pão, e o reelege em outubro.PublicidadeO resultado é um equilíbrio, no sentido que os economistas dão à palavra: uma situação em que nenhum participante tem incentivo individual para mudar de conduta. O transgressor não muda porque a probabilidade de sanção legal é baixa e a sanção social é nula. O conivente não muda porque indignar-se sozinho custa caro e não rende nada. O político não muda porque a obra de papel elege tanto quanto a obra de verdade, com a vantagem de custar menos e sobrar mais. E o policial que assiste ao achaque não muda porque intervir é comprar um problema cuja solução ninguém lhe cobra. Todos se comportam racionalmente. O conjunto é irracional.Equilíbrios desse tipo têm uma propriedade conhecida: são estáveis até deixarem de ser. Não se desfazem por pregação moral, campanhas de conscientização ou surtos periódicos de indignação nas redes, que funcionam como analgésico adicional, não como tratamento. Desfazem-se quando o custo de os sustentar se torna visível e é atribuído a alguém. Foi assim com a inflação crônica, que parecia parte da paisagem até que uma geração de formuladores a tornou politicamente insustentável. Foi assim com o cinto de segurança, com a proibição de fumar em ambientes fechados e com a Lei Seca ao volante, três normas que “não pegariam”, segundo o consenso da época, e que pegaram quando a fiscalização ficou crível e a reprovação social deixou de ser opcional. O brasileiro que hoje afivela o cinto sem pensar é a prova viva de que a anestesia não é traço de caráter. É resposta a incentivos, e incentivos mudam.O agro, de onde escrevo mensalmente, conhece bem essa mecânica. Passou décadas convivendo com a tolerância ao desmatamento ilegal e ao grileiro como se fossem externalidades folclóricas, até descobrir que o mundo precifica a conivência: mercados fecham, crédito encarece, cláusulas ambientais aparecem em contratos que antes só falavam de preço e prazo. A sanção que a sociedade brasileira não aplicou internamente veio de fora, na forma de barreira comercial e desconto de reputação. É uma lição que vale para o país inteiro: quando um povo se anestesia, alguém acaba cobrando pela cirurgia, e o preço é sempre maior.Há uma segunda anestesia, menos visível e mais cara. Enquanto discutimos o de sempre, o mundo está sendo reorganizado por três transformações simultâneas: a transição climática e ecológica, que redesenha cadeias produtivas inteiras e já chega ao Brasil em forma de exigência contratual; a fragmentação da ordem política internacional, que substitui regras multilaterais por blocos, barganhas e coerção econômica; e a mudança tecnológica, que altera o que é produzir, o que é trabalhar e onde fica o valor. Procure essas três nos programas dos candidatos, nos debates, no noticiário eleitoral. Elas quase não estão lá. Um país que decide seus próximos anos sem falar do que decidirá seus próximos anos não está distraído. Está anestesiado.A terceira dessas transformações é a que mais nos cobra e a que menos discutimos. A inteligência artificial não é gadget nem ameaça abstrata de ficção: é a chance concreta de resolver o problema que nos persegue há quatro décadas, o de crescer sem ganhar produtividade. Crescemos, quando crescemos, empurrados por preço de commodity e por ciclo de crédito, não por eficiência. Nenhum país sustentou prosperidade dessa forma. Compor crescimento com investimento em inovação, em capital humano, em pesquisa aplicada e em difusão tecnológica para o tecido produtivo que não é de ponta deixou de ser agenda de seminário e virou condição de sobrevivência econômica. O agro brasileiro, aliás, é a prova doméstica de que funciona: virou potência porque décadas atrás alguém decidiu investir em ciência tropical quando ninguém acreditava. Fizemos uma vez. Não há razão para não fazer de novo, exceto a de que ninguém está cobrando isso na urna.PublicidadeA eleição que se aproxima não resolverá nada disso, e não é essa a expectativa razoável. Mas ela é o único momento institucional em que a sociedade precifica, ainda que mal, a tolerância que pratica. O voto é a rara ocasião em que a conivência tem custo zero de rompimento: não exige coragem física, não expõe ninguém ao flanelinha, não cobra o constrangimento de recusar um aperto de mão no jantar. Basta lembrar, diante da urna, do recapeamento que durou três meses, da obra que não aguentou um ano, da promessa que ninguém pretendia cumprir.Sérgio Buarque de Holanda encerrou Raízes do Brasil com uma aposta: a de que a cordialidade, com tudo o que ela carrega, não seria eterna, e que alguma forma mais impessoal e mais pública de convivência acabaria por se impor. Quase noventa anos depois, seguimos devendo a ele essa demonstração. A anestesia não é destino, é escolha reiterada. Este artigo, como avisei, não encerra o tema: fica devendo a pergunta mais difícil, a de como enfrentar a degradação moral da política profissional brasileira e, pior, por que permitimos trocar a democracia pela oligarquia dos três poderes: legislativo, judiciário e executivo? Por ora, o que temos é a urna. Daqui a 25 dias, ela oferece a cada um de nós a rara chance de começar a despertar.Vale ler tambémPrédio mais alto de São Paulo fecha contrato com primeiro inquilino Gafisa busca injeção de capital para terminar obras atrasadas O Supremo e a reeleição: Não houve tempo para que o Lula 4 fosse a tábua de salvação de Moraes
Opinião | Por que nós, eleitores, toleramos tanto, há tanto tempo, com tamanha naturalidade?
A anestesia brasileira não é defeito de caráter; é resposta racional a um sistema que premia a transgressão e nada cobra de quem com ela convive










