Vota porque gosta ou vota porque não gosta? Em eleições, o combustível político pode ser a simpatia por um candidato, ou outro sentimento talvez ainda mais poderoso: a repugnância. E quando se olha para as taxas de rejeição no Brasil, é mesmo isso que parece estar a acontecer.

Quando o eleitor vai às urnas, tem duas formas de escolher: pela identificação com um político e as suas propostas, ou então mais pela aversão em relação à pessoa e às ideias do oponente.

Nos últimos anos, em algumas democracias, paralelamente ao aumento do populismo da direita radical e à polarização afetiva que ele trouxe, cresceram também as taxas de rejeição dos candidatos. A narrativa de ameaça e diabolização do adversário, o estilo conflituoso e as ideias polémicas ajudam a explicar o fenómeno.

Nos Estados Unidos, Trump e Hillary protagonizaram, em 2016, a primeira eleição presidencial em que os candidatos dos dois grandes partidos chegaram às vésperas com mais avaliações desfavoráveis do que favoráveis.

O Brasil seguiu atrás. Quando se analisam as eleições presidenciais neste século, é evidente uma mudança. É que, em 2002, a rejeição de Lula era de menos de 30% e a de José Serra chegava a mais de metade dos eleitores. Mas, nas duas últimas corridas, as antipatias passarem a ser recíprocas: há uma dupla rejeição simétrica, equivalente entre os polos da esquerda e da direita.