Sucessão de crises em pouco mais de uma década e duelo de ministros do STF deixam eleitor entre desdém e asco, e pleito pode resultar em busca por revanche em vez de futuro 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). — Foto: Cristiano Mariz / Brenno Carvalho / Agência O Globo O Brasil tem vivido, pelo menos desde 2013, de sobressalto em sobressalto. Depois de uma sucessão de crises em que a mais grave é sempre a próxima, a eleição de 2026 vai ganhando contornos de uma grande DR, com cobranças de promessas não cumpridas, ressentimentos cultivados e desejo de revanche pautando, em caminhos paralelos, o comportamento do eleitor, dos protagonistas e das instituições. As Jornadas de 2013; a reeleição de Dilma Rousseff por um fio de cabelo e sua rápida queda, menos de dois anos depois; a Lava-Jato; a eleição de Jair Bolsonaro; a pandemia e os abusos autoritários do bolsonarismo no seu curso e depois; a reviravolta que tirou Lula da cadeia e o reconduziu ao Planalto; e condenação e prisão de Bolsonaro compõem um enredo que geraria consequências profundas em qualquer país caso se desenrolasse ao longo de décadas, mas ocorreu em pouco mais de dez anos. Personagens de todos esses eventos dramáticos parecem se encontrar no atual momento, com decisões tomadas ao longo dessa quadra influenciando de forma capital o escrutínio de um eleitor exausto de viver fatos históricos como quem dá bom dia no grupo de WhatsApp. Lula prometeu preservar a democracia, retomar o diálogo entre os diferentes, voltar a tirar o Brasil do Mapa da Fome, retomar os programas sociais, restabelecer a confiança na ciência e em dados e evidências, promover a igualdade de gênero nos espaços de poder e devolver à população o poder de compra, simbolizado na metáfora da picanha com cerveja. A plataforma foi se perdendo pelo caminho. O 8 de Janeiro tratou de fazer o prato da balança pender para o discurso quase único da defesa da democracia, e a ideia de que só ele poderia impedir a volta do bolsonarismo o levou a trair uma das promessas mais importantes: que, se eleito, não seria candidato de novo. A escolha de Flávio Bolsonaro é decorrência direta da candidatura de Lula, e a disputa entre dois campeões absolutos de rejeição ajuda a explicar o desdém, quando não asco, que o eleitor demonstra ao ter de fazer de novo a escolha do que considera menos pior. Na ausência de um futuro em debate, o que se tem é um eterno retorno a esse passado de tretas e esgarçamento paulatino e constante da boa política, da capacidade de diálogo, da tão jovem quanto maltratada Constituição e do papel de cada uma das instituições da República, que nos trouxe ao vale-tudo de hoje em que dois ministros da Suprema Corte duelam à beira do abismo ameaçando levar o país com eles na queda. É nesse contexto de desconfiança total que qualquer decisão de Alexandre de Moraes será lida como destinada a enterrar o bolsonarismo e assegurar a permanência de Lula no poder, enquanto toda ação de André Mendonça será vista pelo outro lado como premeditada para levar à vitória de Flávio Bolsonaro. Pouco importa, para essas narrativas rasas, que haja exorbitações graves de ambos e, no caso de Moraes, algo bem mais comezinho: a suspeita de favorecimento a um criminoso que ele não se digna a minimamente explicar. Para superar esse impasse que pode ter profundas implicações no resultado da eleição e no futuro do país, o presidente do STF, Edson Fachin, tem de ser firme e superar as questões corporativas para encerrar a batalha dos tronos sangrenta que se desenrola sob seu nariz. Extinguir o inquérito das fake news, definir em plenário o afastamento da cúpula da Polícia Federal e se Mendonça ainda pode continuar relatando os casos Master, INSS e Lulinha são as decisões para já. Mas há outras. O tempo das consultas de coxia por parte do presidente e da omissão conveniente dos demais ministros, mais preocupados com alinhamentos internos que com a sociedade, acabou. Quando togados decidem lutar no gel se valendo de sua caneta para isso, ou os que não estão no ringue dão um basta à rinha, ou o próximo capítulo da sucessão de crises pode ser a revanche contra o Supremo como um todo.
Eleição não pode ser mero acerto de contas
Sucessão de crises em pouco mais de uma década e duelo de ministros do STF deixam eleitor entre desdém e asco, e pleito pode resultar em busca por revanche em vez de futuro










