Dois perfis ajudam a mapear sentimento que será a principal variável para definir as eleições em pesquisas qualitativas, diz diretor do Plaza Publica 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Fachada de prédios na Avenida Atlântica, em Copacabana, com bandeiras de apoio a Lula e a Bolsonaro — Foto: Gabriel de Paiva/Agência O Globo O sentimento anti-PT em 2026 será provavelmente a principal variável a definir as eleições de outubro. Vai depender de quanto esse intangível ficará atenuado ou exacerbado. Há certa crise de sentido do que aglutina esse “anti”. Não é um discurso econômico de finais dos anos 90, tampouco mudar o sistema de 2018. Esses eleitores ficam ressaibos disso: o ajuste no tom de costumes, o discurso menos proclive ao capitalismo empreendedor, a falta de autocrítica sobre como tornar mais eficientes os planos sociais e como favorecer uma transição para que os beneficiados sejam absorvidos pelo mercado de trabalho. As pesquisas qualitativas do Plaza Pública de agosto de 2026 revelam algumas nuances de como esse coletivo flutua entre emoções e argumentos. Dois públicos principais definem esse sentimento. Por um lado, há quem está em “modo avião”: repete mantras do passado com algumas atualizações (históricos de escândalos, passado na prisão do Lula, falta de compromisso com valores como a “família”, etc). Falam no automático “o país está indo para o buraco”, embora não consigam articular o que isso significa. “As pessoas odeiam de coração, o PT embutiu muito benefícios que prendem a pessoa a querer permanecer”, diz esse eleitor. Do outro, há o grupo de quem vivencia um incômodo com a situação atual e sente revolta pelo sistema (salários de juízes, benefícios da classe política, etc.). É mais o cansaço e busca de virar a página do que extrapolar a ira contida. Busca-se uma mudança, outros rumos e caminhos. “Desabafo, basta, já deu, precisamos mudar, o PT já teve muitos anos”, afirma esse outro eleitor. A realidade mostra uma sanfona de preços que gera certo descompasso na percepção concreta contrastada com a conta no mercado. Notícias de deflação que não se corroboram na conta do mercado. As preocupações mudam claramente por classe social. Para a classe alta, o foco são investimentos, eventual disparada do dólar, encarecimento de alguns produtos e serviços. Para a classe baixa, se vai ter impacto no emprego, se a incerteza cresce e vira crise, ou se vai se dissipar. Analisando os discursos dos opositores ao Lula, surgem texturas que ajudam a entender o tom do segundo grupo: Vamos reconstruir ecoa mais que vamos nos vingar. Recomeçar, criar alicerces. Menos tom de vingança, revanche raivosa, algo pessoal. O desafio para esse público é como o sentimento antissistema se ancora numa projeção coletiva: “O Renan tem futuro, não sei vai ter força. Ele tem de dar um tempo com essa mágoa, uma mudança para um novo país”.Do mesmo modo “prendeu-matou” funciona menos. Banho de sangue está vários tons acima do desejo da população de querer uma vida mais segura: “Não é uma solução, a pessoa tem que pagar pelo erro, pagar de verdade”.Ao se tratar de alternativas importadas, a “Motosserra” de Javier Milei funciona: ativa o sentimento de diminuir despesas da política. Já cobrar a estrangeiros não residentes pelos usos de serviços públicos no Brasil (como Milei faz na Argentina) não agrada no Brasil. Existe o consenso de que o Brasil é um país receptivo, que vastas áreas dependem do turismo, que os visitantes já pagam impostos por serviços e despesas que realizam no país. A lógica da reciprocidade não ganha aderência. “Porque vai cobrar de alguém que está vindo e trazendo dinheiro para cá”?O discurso do Renan Santos quando ataca em partes iguais Lula e Bolsonaro ganha força. É o limiar que os “nem nem” querem escutar: “Exatamente a visão da minha geração, eu não vi a ditadura, 2006 o Lula era uma esperança”. De tudo isto surge um signo claro: a radicalização de “vamos virar Venezuela” hoje claramente não ecoa mais. Nenhum entrevistado indeciso acredita mais nisso em 2026. Esse discurso que teve apelo em 2022 está, agora, esvaziado de sentido. Em tempos de afetos mornos, a retórica da polarização nos arrasta para uma utopia: uma fórmula simples, reducionista e simplificada. A deliberação e o equilíbrio exigem um esforço psíquico mais complexo, mas, em última análise, nos aproximam da realidade, de um terreno mais próximo da vida cotidiana. O estado de espírito social predominante entre os indecisos caminha atualmente nessa direção: menos polarização utópica e mais elaboração da realidade. * Eduardo Sincofsky é mestre em Análise da Opinião Pública e psicólogo. Trabalha com pesquisa qualitativa há mais de 30 anos. É diretor do Projeto Plaza Publica, barômetro que mede qualitativamente a agenda do país de maneira periódica.
Artigo: entre emoções e argumentos, as nuances do sentimento anti-PT
Dois perfis ajudam a mapear sentimento que será a principal variável para definir as eleições em pesquisas qualitativas, diz diretor do Plaza Publica







