Para Eduardo Sincofsky, psicólogo que pesquisa opinião pública, ascensão de Augusto Cury indica que faltava ‘oferta’ para atrair indecisos 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Argentino radicado no Brasil, psicólogo se baseou em pesquisas qualitativas para escrever ‘A Polarização no Divã’ — Foto: Gabriel Reis/Valor A ascensão nas pesquisas de Augusto Cury, candidato do Avante à Presidência, não foi de todo uma surpresa para o psicólogo e especialista em pesquisas de opinião pública Eduardo Sincofsky, que está lançando o livro “A Polarização no Divã” (Mórula Editorial). As conclusões de pesquisas qualitativas com eleitores indecisos que vem conduzindo desde o início de 2025, e que embasaram a obra, permitiram ao autor identificar um espaço que o escritor e psiquiatra, estreante em eleições, parece começar a ocupar: o do cansaço com a divisão política extremada no país. “É como se existisse uma ressaca emocional”, resume ele, em entrevista ao Valor, ao falar dos resultados das conversas em profundidade que teve, ao longo dos últimos meses, com cerca de 50 eleitores, de diferentes perfis e origens. Seu foco eram pessoas que tinham escolhido Jair Bolsonaro ou Luiz Inácio Lula da Silva, em 2018 e 2022, mas se viam indecisas para 2026 e gostariam de ter outras opções. Para o livro, também fez pesquisas quantitativas com mais de 3 mil entrevistas. Na avaliação de Sincofsky, não é que a chamada polarização afetiva tenha desaparecido, mas ela perdeu intensidade e atinge a população em graus variados, inclusive dentro de um mesmo grupo. Segundo ele, o antagonismo antes mais nítido ganhou gradações, como numa escala de tons. As “posições afetivas”, diz, mudam de acordo com a situação e o tipo de relação. A sociedade segue atravessada pelo fenômeno, mas uma parte se mostra já cansada dele, porque “não vê ganhos” em uma “polarização tóxica”, traduzida pela lógica de impor suas ideias sobre o outro. “Cada um vive a polarização de modo diferente e único. Isso não traz alegria ou felicidade às pessoas, mas é como se estivessem um carro atolado na lama: querem sair dali, mas a roda do carro só gira sobre o eixo e elas não conseguem”, compara, apontando a existência de uma “minoria intensa”, mais engajada e vocal, “que contamina o resto”. Por outro lado, ele vê jovens e mulheres “claramente mais a fim de virar a página, de dar um basta a isso”. Com a ressalva de que ainda não há evidências de um crescimento sustentado de Cury — após marcar 10% em pesquisa da Quaest da semana passada, 8% na desta semana e 8% na do Datafolha — e que a eleição tem um caráter multifatorial, Sincofsky considera que o “outsider” pode ter avançado em algo que outros candidatos fora da polarização não alcançaram: ser percebido como independente e pacificador. Corrupção não tem a mesma força que tinha na Lava-Jato” “Há um mercado ‘do meio’, que gostaria de sair da polarização e não tem oferta. Não existe alguém que ocupe esse espaço como uma alternativa real e viável”, diz. “Creio que ele [Cury] pode estar começando a cavar esse espaço, mas teremos que ver se vai conseguir”, segue, descrevendo o isolamento de Lula e Flávio na liderança como reflexo de uma “falta de produto”. Numa analogia com a lei de mercado, seria mais um problema de oferta do que de demanda. No entanto, os indecisos sinalizam querer um candidato que tenha propostas, e não só que aponte problemas ou ataque os oponentes. Vetores da eleição Na análise de Sincofsky, a corrupção é um dos vetores temáticos desta eleição, mas suas pesquisas mostraram que a questão se tornou complexa demais para o eleitor médio e causa a sensação de um problema generalizado. “É uma batalha em que todos [os candidatos] perdem”, afirma. Para ele, o escândalo do Banco Master e as implicações do caso no Supremo Tribunal Federal (STF) podem impactar o voto, mas outros fatores também terão peso. No livro, ele escreve que o colapso do Master vem sendo “decodificado de forma confusa pela população” e visto como “mais um de tantos escândalos”, o que ajuda a explicar a ausência de um sentimento de revolta, como o da época do impeachment da presidente Dilma Rousseff. “Corrupção não tem a mesma força que tinha na Lava-Jato”, ressalta. O pesquisador lista outros quatro grandes eixos, a partir da análise dos grupos de discussão, que considera serem o pano de fundo desta eleição. Na questão social, entram o fim da escala 6x1 e o futuro do Bolsa Família; na segurança pública, emerge uma preocupação que abrange diferentes classes sociais; na economia, despontam custo de vida e endividamento, sem deixar de envolver as apostas; e, por fim, a vertente cultural engloba pautas de costumes e a própria polarização como sintoma social. Antes de mergulhar profissionalmente no universo de pesquisas políticas — com a fundação em 2025 do projeto Plaza Publica, que busca ser um barômetro qualitativo de opinião pública —, Sincofsky trabalhou em empresas de pesquisa de mercado e consumo, experiência que diz também aplicar no esforço de entender a cabeça do brasileiro. Argentino radicado no Brasil há 24 anos, Sincofsky considera seu sotaque e o ar de “estrangeiro” uma vantagem em seu dia a dia nas pesquisas. Muitos entrevistados, diz ele, tendem a ser mais minuciosos nas respostas, o que lhe permite ir mais a fundo nas perguntas. “Ter essa imagem de gringo me ajuda. Há do meu lado uma escuta entre ingênua e descompromissada, mas que é, na verdade, uma escuta ativa”, conta ele, citando o país natal e a eleição do presidente Javier Milei para situar a polarização como algo que não é exclusivo do Brasil. “Cada lugar tem suas texturas e nuances, mas o fenômeno é o mesmo”, observa.