O STF na hora da verdade: investigação ‘rigorosa’ ou apenas um jogo de cena?Não se está falando em punição ou juízo prévio, mas apenas a autorização para que se investigue aquilo que é óbvio que deve ser investigado. Crédito: EstadãoGerando resumoFoto: Arquivo Pessoal/Ligia Maura CostaLígia Maura CostaCoordenadora do Centro de Estudos em Ética, Transparência, Integridade e Compliance da FGVA escalada da crise do Supremo Tribunal Federal (STF) no Brasil pode comprometer não só a credibilidade do Poder Judiciário, mas também a percepção internacional sobre a integridade das instituições brasileiras e o Estado de Direito. É o que avalia a coordenadora do Centro de Estudos em Ética, Transparência, Integridade e Compliance da FGV (FGVethics), Lígia Maura Costa, em entrevista ao Estadão.Segundo Costa, os acontecimentos podem afetar o cenário de negócios para empresas brasileiras no exterior, principalmente para operações que precisam de integridade estável de um modo geral: investimentos, crédito, contratos e processos de due diligence (investigação de uma empresa antes de fechamento de contrato).“Quando há dúvidas sobre a imparcialidade e a integridade de quem deve garantir o cumprimento das leis, investidores avaliam que o risco no País aumenta. Isso significa crédito mais caro, garantias adicionais para empréstimo, maior escrutínio sobre empresas brasileiras e adiamento de investimentos.” PublicidadeNo campo reputacional, essas companhias também podem sofrer com a desconfiança provocada pelo ambiente institucional, mesmo quando têm boas práticas de governança, ressalta. “A incerteza e a percepção de imparcialidade na aplicação da Lei pela Corte Suprema pesam nas decisões econômicas domésticas e internacionais. A credibilidade do Judiciário é um ativo econômico do Brasil.”Leia os principais trechos da entrevista com Costa:A crise no STF impacta a imagem da integridade desse Poder no Brasil e, de alguma forma, pode afetar a visão sobre a integridade das empresas brasileiras no mercado exterior?Sim. Uma crise de credibilidade no STF não fica restrita ao Judiciário. Ela compromete a percepção internacional sobre a integridade das instituições brasileiras e o Estado de Direito. Isso pode afetar empresas brasileiras no exterior, sobretudo em operações que envolvem investimentos, crédito, contratos e processos de due diligence, ou seja, de integridade em geral. O mercado avalia não apenas a integridade das empresas, mas também a confiabilidade no ambiente institucional do país. Quando decisões parecem imprevisíveis ou as instituições responsáveis por aplicar a Lei enfrentam questionamentos, aumenta a percepção de risco-País, o custo do capital e a cautela dos investidores. Portanto, não se trata apenas de uma crise interna do STF, mas de um problema com consequências econômicas e reputacionais para o Brasil e para suas empresas no mercado internacional.Quais são essas consequências econômicas e reputacionais imediatas? A consequência imediata é a perda de confiança nas instituições e na estabilidade econômica do País. Quando há dúvidas sobre a imparcialidade e a integridade de quem deve garantir o cumprimento das leis – os guardiões da Lei –, investidores avaliam que o risco no País aumenta. Isso significa crédito mais caro, garantias adicionais para empréstimo, maior escrutínio sobre empresas brasileiras e adiamento de investimentos. No campo reputacional, empresas íntegras podem sofrer com a desconfiança provocada pelo ambiente institucional, mesmo quando têm boas práticas de governança. Não significa que esses efeitos já estejam todos comprovados ou que atinjam todas as empresas da mesma forma. A incerteza e a percepção de imparcialidade na aplicação da Lei pela Corte Suprema pesam nas decisões econômicas domésticas e internacionais. A credibilidade do Judiciário é um ativo econômico do Brasil, mesmo que isso não seja claro para muitos.O que precisa acontecer na prática, no processo de investigações, para que a confiança seja restabelecida?A confiança jamais será restabelecida enquanto houver a percepção de que as mais altas autoridades do Poder Judiciário podem influenciar apurações que atingem seus próprios interesses. Investigações precisam de independência, provas preservadas e afastamento de quem tenha conflito de interesses na condução e no julgamento dos casos. O sigilo deve proteger a investigação, jamais a reputação de autoridades que compactuaram com atos ilícitos. O direito de defesa é indispensável, mas não pode servir de pretexto para impedir a apuração. Se houver irregularidades comprovadas, as consequências precisam alcançar os responsáveis. Um sistema que cobra explicações de todos, mas resiste a prestar contas de seus próprios (atos), compromete sua própria legitimidade.PublicidadeQual deve ser o posicionamento externo das empresas no Brasil diante desse cenário de crise, visto que algumas instituições têm publicado manifestos públicos, por exemplo? É melhor se posicionar ou manter discrição?As empresas devem abandonar a prática de defender a segurança jurídica apenas quando seus interesses comerciais estão ameaçados. Não é coerente cobrar previsibilidade econômica e silenciar diante de práticas que comprometem a igualdade perante a Lei. O posicionamento deve defender princípios e valores jurídicos, sem antecipar condenações ou aderir a disputas político-partidárias. Manifestos têm valor quando acompanhados de conduta: recusa de favorecimentos, transparência nas relações com autoridades e compromisso com a integridade. Quem condena privilégios em público e procura acesso privilegiado em particular ajuda a perpetuar o problema, nada além disso.Leia também‘Governança preventiva’ não elimina o risco, mas pode frear novas RJs de varejistas, dizem analistasQual é o perfil dos conselheiros que recebem acima de meio milhão no BrasilE quanto ao posicionamento interno, é o momento de reforçar ou rever algumas das estruturas de governança corporativa nas empresas no Brasil, de forma preventiva?Sim, e essa revisão precisa alcançar o topo. Não basta exigir treinamento de colaboradores da média gerência e do ‘chão de fábrica’, enquanto conselheiros, acionistas controladores e administradores do alto escalão ficam fora do alcance dos controles de boas práticas. É necessário examinar conflitos de interesses, relações com autoridades, contratação de intermediários e decisões justificadas pela influência de quem as propõe. Programas de compliance e programas de integridade sem autonomia para contrariar a alta direção é peça de propaganda e marketing, apenas. O verdadeiro teste da governança é a capacidade de investigar e responsabilizar quem concentra poder, inclusive quando isso implica perder um negócio ou romper uma relação influente. Governança que fiscaliza quem obedece e nunca quem realmente tem poder de mando é uma ‘fachada de integridade’.Vale ler tambémComo as canetas emagrecedoras já impactam o varejo, a indústria e os hábitos de consumo no BrasilPor que nós, eleitores, toleramos tanto, há tanto tempo, com tamanha naturalidade?Prédio mais alto de São Paulo fecha contrato com primeiro inquilino
Entrevista | Credibilidade do STF é ativo econômico do País por isso crise eleva percepção de risco, diz analista
Coordenadora do Centro de Estudos em Ética da FGV, Lígia Maura Costa avalia que crise no Judicário compromete percepção sobre integridade das instituições e afeta o ambiente de negócios













