Quando se tratava de pressionar o governo israelense, Reino Unido costumava seguir os passos da França; Sob nova liderança, entra na vanguarda com nova proposição 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O premier do Reino Unido, Andy Burnham, e o secretário de Relações Exteriores Ed Miliband durante ida ao Parlamento nesta quarta-feira — Foto: House of Commons / AFP Quando o Reino Unido confirmou, em setembro passado, que reconheceria um Estado palestino, seguiu a esteira da França, que havia sinalizado alguns meses antes que planejava dar esse passo carregado de simbolismo. Na terça-feira, quase um ano depois, foram os britânicos que tomaram a iniciativa. Londres anunciou, seguido por Paris e pelo Canadá, que deixaria de comercializar com os assentamentos judaicos na Cisjordânia, chegando a acusar parte dos colonos de praticarem "limpeza étnica" contra os palestinos. A sequência diplomática reflete, em parte, a política doméstica de cada país. No ano passado, o presidente francês, Emmanuel Macron, entrando na fase final de seu mandato, estava ansioso para consolidar seu legado. Agora, o novo primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, quer apaziguar membros do Partido Trabalhista horrorizados com o sofrimento em Gaza e irritados com a inação do Reino Unido. Ainda assim, o impacto cumulativo é o de uma pressão europeia notavelmente unificada sobre Israel. Isso deixou o governo israelense profundamente afastado da Europa, em desacordo com as suas duas maiores potências militares — outrora aliadas incondicionais — e diante de uma punição econômica que, segundo analistas, pode ir muito além do simbolismo. — A ideia de boicotar produtos dos assentamentos ou até mesmo tratá-los de maneira diferente em termos alfandegários e tributários sempre foi discutida, mas praticamente nada foi feito até hoje — disse Daniel C. Kurtzer, ex-embaixador dos EUA em Israel, que atualmente leciona em Princeton. — Nem mesmo a ideia de rotular claramente os produtos dos assentamentos, para diferenciá-los daqueles com a indicação 'Made in Israel', chegou a avançar. Em última análise, isso pode representar um golpe econômico muito significativo para o movimento dos assentamentos e para qualquer governo israelense que os apoie. As exportações dos assentamentos representam apenas uma pequena fração do comércio anual entre Reino Unido e Israel, de US$ 8 bilhões (R$ 40,7 bilhões no câmbio atual), embora seja difícil medir seu valor exato, segundo uma avaliação recente feita por pesquisadores do Parlamento britânico. Mas a receita proveniente de produtos como tâmaras, vinho e plásticos — combinada com subsídios do governo israelense — desempenha um papel vital nas economias de cada assentamento. Soldados israelenses chegam ao vilarejo de Qusra, na Cisjordânia ocupada por Israel: local tem enfrentado uma escalada da violência por parte de colonos israelenses no último mês — Foto: Jaafar Ashtiyeh/AFP A proibição destacou a crescente divergência da Europa em relação aos EUA na política para o Oriente Médio. O governo de Donald Trump "obviamente" não seguirá o Reino Unido, disse o secretário de Estado Marco Rubio na terça-feira. Essa divergência não chega a surpreender no caso da França, que tem uma política externa independente, mas é significativa no caso britânico, historicamente mais alinhado com Washington. A reação contundente de Israel sugeriu que o país considerava a mudança britânica algo mais do que simbólico. Israel ordenou o fechamento do Consulado-Geral do Reino Unido em Jerusalém Oriental, que representa os interesses britânicos em Jerusalém, na Cisjordânia e em Gaza. Fundado em 1839, ele é um dos postos diplomáticos mais antigos da região. O governo também proibiu a entrada no país de vários parlamentares britânicos, em sua maioria de esquerda, cancelou o treinamento britânico das forças de segurança palestinas e excluiu o país da missão de coordenação para Gaza, um órgão internacional liderado pelos EUA que coordena os esforços de ajuda humanitária no enclave palestino e está sediado em Israel. O ministro das Relações Exteriores de Israel, Gideon Saar, acusou um "governo trabalhista hostil" de "agir sistematicamente contra o Estado de Israel". Ele também afirmou que o Estado judeu não tinha escolha a não ser retaliar uma medida que classificou como "moralmente distorcida". Israel não anunciou medidas semelhantes contra a França, embora tenha atacado Macron no ano passado por liderar a iniciativa de reconhecimento da Palestina. A campanha do presidente francês também envolveu a organização, com a Arábia Saudita, de uma conferência em julho de 2025 sobre a solução de dois Estados. Parte do desafio para Israel ao retaliar desta vez é que a proibição do comércio com os assentamentos judaicos foi apoiada por outros nove países além de Reino Unido, Canadá e França: Dinamarca, Finlândia, Islândia, Irlanda, Noruega, Polônia, Portugal, Espanha e Suécia também se somaram à iniciativa. Em uma declaração conjunta, os ministros das Relações Exteriores dos países disseram ter sido levados a agir pelos "níveis sem precedentes de violência dos colonos e expansão dos assentamentos". Eles apontaram para os planos israelenses de construir um novo assentamento em E1, um corredor estratégico na Cisjordânia considerado essencial para a viabilidade de um Estado palestino. Os países disseram que aprovariam leis nacionais e apoiariam leis europeias para restringir o comércio de mercadorias com os assentamentos, que são amplamente considerados ilegais segundo o direito internacional. Reino Unido, França e Canadá foram além. Além de interromper o comércio de mercadorias, disseram que também atingiriam serviços, mirando "indivíduos e empresas que apoiem, facilitem ou lucrem com atividades ilegais de assentamentos". Manifestantes protestam em frente ao Parlamento britânico, exigindo ação pela Palestina — Foto: Henry Nicholls/AFP Analistas disseram que a medida pode ser difícil de implementar, citando o exemplo hipotético de um banco israelense que conceda empréstimos para a construção de assentamentos na Cisjordânia, mas também realize outras atividades bancárias em Israel ou no exterior. — Ninguém chegou a esse ponto ainda — disse Daniel Levy, que dirige o US/Middle East Project, um centro de estudos com sedes em Londres e Nova York que trabalha pela paz no Oriente Médio. — Isso está levando a questão para um novo terreno, certamente do lado britânico. Levy, que criticou o governo trabalhista anterior por adotar o que chamou de medidas pela metade contra Israel, disse que Burnham reconheceu que precisava fazer mais. Pouco depois de assumir o cargo, em julho, ele pediu desculpas pela forma como o Partido Trabalhista lidou inicialmente com a guerra em Gaza, desencadeada pelo ataque do Hamas contra Israel em outubro de 2023, afirmando que o governo "não fez isso da maneira certa". 'Limpeza étnica' A mudança de política tem sido conduzida por seu ministro das Relações Exteriores, Ed Miliband, que adotou uma postura significativamente mais dura em relação a Israel do que seus antecessores. No Parlamento, na terça-feira, Miliband se descreveu como um "judeu britânico orgulhoso" que apoiava Israel. Entretanto, criticou duramente a situação na Cisjordânia, onde os ataques de colonos contra palestinos atingiram níveis recordes nos últimos anos, provocando o deslocamento de palestinos de áreas estratégicas do território. — O governo britânico concorda que há limpeza étnica de palestinos em áreas da Cisjordânia, perpetrada por colonos terroristas — disse Miliband. — Com demasiada frequência, o governo israelense fez vista grossa para isso. Palestinos correm para cima de uma colina próxima a fogueiras enquanto tentam expulsar colonos israelenses na aldeia de Sinjil, em julho — Foto: John Wessels/AFP Falando a emissoras de televisão na quarta-feira, ele acrescentou que o Reino Unido havia avaliado se o custo de tomar medidas superava os benefícios, mas concluiu que o país não poderia "simplesmente ficar de braços cruzados porque temíamos a reação de Israel". O Reino Unido, observou Levy, rejeitou o argumento de que deveria esperar até depois das eleições israelenses do mês que vem, para evitar que suas medidas ajudassem a mobilizar os eleitores israelenses em torno do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e fortalecessem seu governo de linha-dura. Esses setores, afirmou ele, já têm poder suficiente. Nem todos elogiaram a nova postura britânica. "A política britânica para Israel e para o Oriente Médio como um todo tem substituído cada vez mais a estratégia por posicionamentos declaratórios", escreveu Jon Mendelsohn, membro trabalhista da Câmara dos Lordes, em um artigo publicado na The Spectator, uma revista conservadora. "O resultado foi uma erosão significativa da influência britânica sobre Israel [tornando uma solução de dois Estados menos, e não mais, provável]. O governo britânico claramente espera o resultado oposto e convenceu aliados a seguir seu caminho. A elaboração das sanções comerciais levará meses, observou Levy, e sua aplicação será complicada. Mas, segundo ele, esse é justamente o tipo de esforço diplomático pesado no qual o Reino Unido frequentemente se destacou. — É um teste da tese de que o Reino Unido ainda tem algum peso — disse Levy. — É o Reino Unido assumindo um papel de liderança e de protagonismo, e isso dá margem de manobra para outros países.
Análise: Com pressão sobre Israel por colonos na Cisjordânia, Europa marca nova divergência com os EUA
Quando se tratava de pressionar o governo israelense, Reino Unido costumava seguir os passos da França; Sob nova liderança, entra na vanguarda com nova proposição












