Liderada por governos britânico, francês e canadense, medida prevê proibição de produtos e serviços; Estado judeu classifica decisão como ‘antissemita’ e diz que proibirá entrada no país de 12 autoridades eleitas e cidadãos do Reino Unido 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Militares israelenses vigiam corredor na Cisjordânia conhecido como E1, onde Israel quer construir novos assentamentos judaicos — Foto: Menahem Kahana / AFP Reino Unido, França e Canadá anunciaram nesta terça-feira que lideram uma iniciativa de 12 países para restringir o comércio de produtos provenientes de assentamentos israelenses na Cisjordânia ocupada. O ministro britânico das Relações Exteriores, Ed Miliband, acusou o governo israelense de fazer “vista grossa” à “limpeza étnica” realizada por colonos no território palestino, enquanto, em comunicado, o grupo disse ser necessário agir diante da expansão dos assentamentos e de ações do governo do premier Benjamin Netanyahu — que, segundo os países, estão “minando a possibilidade de uma solução de dois Estados”. Em resposta, Israel classificou a decisão como “antissemita e anti-Israel” e anunciou que proibirá a entrada no país de 12 autoridades eleitas e de alguns cidadãos do Reino Unido. A medida será implementada por meio de ações nacionais e de uma iniciativa europeia. Além dos três países que lideram a iniciativa, Dinamarca, Finlândia, Islândia, Irlanda, Noruega, Polônia, Portugal, Espanha e Suécia aderiram à declaração conjunta. O texto afirma que Reino Unido, França e Canadá “saúdam as importantes medidas já adotadas pela Irlanda, Espanha, Países Baixos, Noruega e Bélgica” e que os três apresentarão medidas nacionais para proibir o comércio de produtos provenientes dos assentamentos. — O governo britânico reconhece que está ocorrendo uma limpeza étnica na Cisjordânia, perpetrada por colonos terroristas. E, com demasiada frequência, o governo israelense faz vista grossa a essa situação. Pior ainda, alguns de seus membros fizeram declarações e tomaram medidas destinadas a apoiar o deslocamento forçado dos palestinos — disse Miliband diante da Câmara dos Comuns. — Por isso, posso anunciar hoje que vamos instaurar uma proibição de importação de produtos provenientes de assentamentos ilegais. No texto, o presidente francês, Emmanuel Macron; o primeiro-ministro britânico, Andy Burnham; e o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, afirmam que os assentamentos israelenses na Cisjordânia prejudicam as perspectivas de uma solução de dois Estados, definida pelos líderes como “fundamental para a paz, estabilidade e segurança no Oriente Médio e além”: “A expansão sistemática dos assentamentos na Cisjordânia (...), assim como o aumento drástico da violência por parte dos colonos, representam uma ameaça direta”, escreveram. Pela legislação internacional, todos os assentamentos na Cisjordânia — 146, segundo a organização israelense Paz Agora — são ilegais. Já Israel considera ilegais apenas os postos avançados estabelecidos por colonos sem prévia autorização, mas muitos deles legalizados a posteriori, estimados pelo Paz Agora entre 390 e 400, a vasta maioria pequenas unidades de colonos extremistas dedicados à expansão da ocupação por meio da violência. Ao todo, cerca de 700 mil colonos judeus moram nos assentamentos na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental em área ocupada na Guerra dos Seis Dias em 1967. Segundo a ONU, os incidentes violentos que deixaram palestinos feridos subiram de um a cada 3 dias em 2020 para mais de 3 por dia neste ano — no primeiro semestre foram registrados mais de 850 feridos. Relatório do fim de agosto do Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários da organização indicou que soldados e colonos israelense já mataram 79 palestinos — incluindo 19 menores — em 2026. Horas depois do an, Israel anunciou que vai proibir a entrada de 12 autoridades eleitas e de alguns cidadãos britânicos no país, incluindo o ex-líder do Partido Trabalhista Jeremy Corbyn, além de deputados trabalhistas e Fahad Ansari, diretor do grupo pró-palestino Riverway to the Sea. O ministro das Relações Exteriores de Israel, Gideon Sa’ar, anunciou ainda o fechamento do Consulado Britânico em Jerusalém, a retirada de representantes britânicos do Centro Internacional de Apoio a Gaza, em Kiryat Gat, e o encerramento do treinamento britânico para as forças de segurança da Autoridade Palestina na Cisjordânia. As medidas foram aprovadas pelo premier Benjamin Netanyahu, disse o ministro, advertindo que Israel responderá a ações semelhantes de outros países. Segundo Miliband, a proibição do comércio entrará em vigor dentro de seis a nove meses e também restringirá serviços como financiamentos, construções, infraestrutura, imóveis e publicidade. França e Canadá também anunciarão medidas para proibir produtos dos assentamentos, enquanto Dinamarca, Finlândia, Islândia, Polônia, Portugal e Suécia se comprometeram a “apoiar novas medidas”. Países Baixos, Irlanda, Bélgica, Espanha e Noruega já proibiram produtos provenientes dos assentamentos ou estão em processo de fazê-lo, segundo Miliband. Na declaração conjunta, os 12 países afirmaram que “se opõem firmemente a ações que equivalham à anexação de terras palestinas e ao deslocamento forçado da população palestina”. O grupo pediu ainda que o governo israelense interrompa imediatamente a expansão dos assentamentos, assegure a responsabilização pela violência de colonos e investigue alegações contra as forças israelenses. Miliband também anunciou um endurecimento do embargo britânico à venda de armas a Israel para uso em Gaza, que passará a incluir armamentos que, segundo ele, “contribuam materialmente para a ocupação” dos territórios palestinos. O Reino Unido reconheceu o Estado palestino no ano passado, em uma tentativa de revitalizar os esforços para alcançar uma solução de dois Estados, que vêm perdendo força. ‘Erro de cálculo’ A postura mais dura em relação aos assentamentos foi recebida positivamente por muitos no Partido Trabalhista, embora alguns integrantes da sigla tenham manifestado preocupação de que a medida possa aumentar o apoio a Netanyahu, que disputa sua reeleição em outubro, ou provocar ataques contra judeus britânicos. O presidente de Israel, Isaac Herzog, classificou a proibição como “um grave erro de cálculo”, já que, no contexto atual, a medida representaria “uma interferência grosseira nas eleições democráticas de uma nação soberana”. Ministros israelenses também condenaram a posição britânica, com o linha-dura Itamar Ben-Gvir, ministro da Segurança Pública, pedindo a Netanyahu que reconheça a reivindicação da Argentina sobre as Ilhas Falkland, território britânico ultramarino no Atlântico Sul conhecido na Argentina como Ilhas Malvinas. O secretário de Estado americano, Marco Rubio, disse nesta terça que a Casa Branca não faria comentários sobre a decisão do Reino Unido, mas sinalizou que Washington não quer ver “nada que desestabilize” o território palestino em meio às tensões regionais mais amplas. — Acreditamos que isso também tem implicações para nossa capacidade de avançar em relação a Gaza, no plano de 20 pontos e no Conselho da Paz, com os quais estamos muito comprometidos — disse. — Obviamente, não vamos fazer o que o Reino Unido fez. Mais cedo, a decisão também foi criticada pelo embaixador dos Estados Unidos em Israel, Mike Huckabee, que a classificou como “discriminação contra o povo judeu” e afirmou que o Reino Unido poderia enfrentar “repercussões ou retaliações” dos EUA caso impusesse as sanções. Vários estados americanos possuem leis que proíbem contratos ou investimentos com empresas que boicotem companhias israelenses. Miliband, no entanto, afirmou que o Reino Unido não aceitará a destruição da solução de dois Estados. A declaração dos 12 países também afirmou que as medidas anunciadas têm como objetivo impedir “mais danos” diante da expansão dos assentamentos e de ações que, segundo os governos envolvidos, ameaçam a possibilidade de criação do Estado palestino. A declaração pediu a Israel que “retire imediatamente esses planos [do projeto de assentamento E1, aprovado pelo Estado judeu] e encerre sua expansão dos assentamentos na Cisjordânia”: “Eles não apenas nos afastarão ainda mais da paz, como também enfraquecerão ainda mais a posição internacional de Israel”, diz o texto. (Com AFP e New York Times)
Doze países impõem sanções a assentamentos de Israel na Cisjordânia, e Reino Unido acusa colonos de ‘limpeza étnica’
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