O papelinho foi colocado de forma estratégica para ser encontrado facilmente, embaixo da carteira. Nele, uma ofensa amarga, crua e debochada, que vai direto ao coração e fica guardada por muitos anos na cachola, quiçá a vida inteira. Irreprodutível.

Tinha também um recado para biscoita, minha filha, que chorou baixinho, reclamou, mas ficou mesmo aflita foi com o impacto que aquilo causaria em Lulu, sua amiga, menininha de uma beleza gostosa, com sobrancelhas marcantes, cabelos ondulados e uma formosura só dela.

"Não fica preocupada, não, Elis. Eu não ligo. Já me acostumei, não é a primeira vez", foi o relato dela, que fala calminho e troca graciosamente algumas letras. É diferente, é única, é um baú de aprendizados para qualquer amigo, para qualquer um que entendeu que a graça de viver está nas descobertas de possibilidades de ser feliz.

"Já me acostumei" talvez seja a frase mais dolorosa de toda essa história. Nenhuma criança deveria precisar se acostumar a ser ferida. Há uma garota aprendendo a suportar algo que os adultos e a comunidade ao redor deveriam impedir ou ao menos se mobilizar pelo contrário.

Crianças não aderem a valores humanos de forma automática, nem necessariamente com proximidade de exemplos –embora ajudem muito. Penso ser preciso ligá-los a sentimentos, a sensações e a afetos. Fazê-los germinar com troca de experiências, com escutas bem conduzidas, com práticas incansáveis de demonstrações de que o mundo é de todo mundo.