Ao reencontrar uma carta escrita na adolescência, uma mulher revisita a própria ingenuidade e percebe que algumas marcas do passado ajudam a explicar quem ela se tornou. 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Ela acordou hoje disposta a colocar ordem na bagunça. Como é que, aliás, estava tudo tão bagunçado assim? Gavetas e mais gavetas de papel que ela foi guardando sem saber para quê. Como se um dia fosse morrer, e alguém fizesse ali um achado arqueológico, uma grande homenagem à sua papelada. Recibos de aparelhos que não existem mais. Bilhetes dos filhos de quando os filhos ainda escreviam bilhetes. Foi a televisão que a empurrou para a faxina. De manhã, viu no noticiário a passagem precoce de uma pessoa famosa, uma dessas mortes fora de hora que deixam todo mundo com a agenda na mão. Ela pensou: “Se eu morresse hoje, iriam mexer nos meus papéis. E encontrariam coisas que talvez eu não quisesse que encontrassem”. Lembrou-se das palavras de sua mãe: “Não arrume tudo, minm nha filha, que Deus entende que você já está pronta para partir”. Ela obedeceu a vida inteira. Deixou sempre uma pendência mínima, uma bobagem no fundo da gaveta, um recado ao céu de que ainda não estava pronta. Foi deixando tanto, que agora talvez Deus nem se recordasse mais dela. Por isso resolveu arrumar, um pouco só. O suficiente para ser notada, não o bastante para ser imediatamente levada. Na terceira gaveta, embaixo de tudo, quase amarelada, uma carta. Reconheceu a letra e a autora: uma adolescente de 15 anos, o pulso inclinado para a direita, a mania de fazer bolinha no pingo do i. Sentou-se na beirada da cama, porque certas coisas não se leem de pé. O que estava escrito não interessa, nem a nós. Havia um destinatário, um nome, um endereço. Mas não era para aquela pessoa que a carta tinha sido escrita, e ela nunca mandou — nem nunca pretendeu mandar. Quando nós escrevemos uma carta, uma mensagem, um email, mas não mandamos, não estamos falando com o outro. Estamos ensaiando. É uma tentativa de nos convencermos daquilo que estamos dizendo, e a prova de que não nos convencemos é justamente o envelope guardado. Mas o pensamento fica ali, por escrito, como um depoimento de uma época. Leu até o fim e sentiu três coisas ao mesmo tempo: vergonha da sua burrice, pena de si e, que ironia, saudade. É assim, diante dos nossos escritos antigos, que descobrimos como éramos bobos. Não bobos de um jeito enternecedor. Bobos mesmo. Era ignorância, no sentido exato da palavra: ela ignorava. Ignorava o que o mundo é, do que as pessoas são capazes, o preço das coisas. É verdade que a ignorância pode ser uma bênção, aquela menina dormia bem. Só que, entre a inocência e o calo, ela hoje fica com o calo. Prefere saber. Prefere-se hoje. Porque hoje ela, pelo menos, tenta se proteger, e a menina da carta não sabia nem que precisava de proteção. Escrevia cartas que não mandava para gente que não merecia. Alan Bennett escreveu que o melhor da leitura é topar num livro com um pensamento que nós jurávamos ser só nosso, particular, intransferível, e ali está ele, anotado por um desconhecido, alguém que talvez tenha morrido há um século. É como se uma mão saísse do papel e segurasse a nossa. Ela pensou exatamente nisso, com a carta na mão. Só que a mão que saiu daquela gaveta era a dela. Mais fina, sem mancha nenhuma, ainda sem aliança. Ela dobrou a carta no vinco antigo, já mais frágil que o próprio papel, e devolveu ao lugar, embaixo dos recibos, onde ninguém procura. Fechou a gaveta devagar, como quem fecha a porta de um quarto em que alguém dorme. A casa continuou bagunçada. Ainda não estava pronta para ser levada.
Há coisas que a gente só entende quando envelhece
Ao reencontrar uma carta escrita na adolescência, uma mulher revisita a própria ingenuidade e percebe que algumas marcas do passado ajudam a explicar quem ela se tornou.







