Na véspera do Natal de 1948, Beverly Williams comprou dois pinguins de madeira pintados à mão e dois pirulitos para colocar na meia das duas filhas, Patricia e Linda, como presente do Papai Noel. Aquilo era tudo o que estava ao seu alcance.
Voltando do trabalho de garçonete, grávida, ao descer do ônibus, notou que os presentes haviam sido roubados no trajeto. Ver as filhas sem um presente no Natal deixou um buraco enorme no coração de Beverly, que durou anos a fio, conta Patricia, uma das filhas, chamada de Patti.
“Desde então, acho impossível deixar passar pequenos pinguins em mercados de pulgas ou lojas de artigos baratos, como se quisesse preencher o vasto campo de gelo deixado em seu triste e sólido coração”, escreve a cantora, compositora, artista, poeta, fotógrafa e escritora Patti Smith em seu mais recente volume autobiográfico, Pão dos Anjos.
Embora este seja seu sexto trabalho autobiográfico, é o primeiro que não se limita a um período específico – daí o subtítulo, A História de Minha Vida.
Relatos cheios de humanidade como este fazem com que seja o mais íntimo e contemplativo de Patti Smith – artista cuja obra sempre transitou entre o sagrado e o terreno, entre a memória e o mito. Em determinado trecho, ela declara: sou memória. E é.















