PUBLICIDADE 'Não sinto falta de fotografar, mas de publicar. Meu negócio é imprimir foto em jornal, em revista', diz ele, que trabalhou no GLOBO entre 1970 e 1975 Indígena que auxiliava os Irmãos Villas-Bôas na expedição que contatou o povo Krenakore, em 1973, pesca no Rio Peixoto de Azevedo, no Mato Grosso — Foto: Pedro Martinelli RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você Fotógrafo Pedro Martinelli recorda em livro suas andanças durante décadas de ofício e apresenta imagens que marcaram sua carreira. As memórias de Martinelli, que bateu ponto no GLOBO de 1970 a 1975, foram coletadas por Carlos Maranhão, biógrafo do magnata da imprensa Roberto Civita (1936-2013). Martinelli desenvolveu técnicas para “fotos roubadas”: em vez de levar a câmara ao rosto, deixava-a na altura do peito e tossia na hora de apertar discretamente o botão, para ninguém ouvir o clique. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Em fevereiro de 1973, o fotógrafo Pedro Martinelli tinha 23 anos, trabalhava para o GLOBO e acompanhava uma expedição dos sertanistas Orlando (1914-2002) e Cláudio Villas-Bôas (1916-1998) para contatar os krenakore (também conhecidos como paranás), os “índios gigantes” da Amazônia. Certa tarde, os expedicionários se equilibravam em canoas quando, do meio das árvores, aparece um krenakore empunhando uma flecha. Martinelli fez a foto antes que ele sumisse. A luz estava ótima. Para festejar o contato com um povo isolado, os homens começaram a pular, eufóricos — e a canoa virou. Martinelli caiu na água junto com seu equipamento fotográfico. Bateu o desespero. — Tentavam me acalmar, mas eu só chorava. Queria me enfiar no mato e sumir — conta Martinelli. 'Olho no mundo': as imagens do fotógrafo Pedro Martinelli 1 de 7 No aeroporto de Manágua, na Nicarágua, guerrilheiros sandinistas comemoram a renúncia e fuga do ditador Anastasio Somoza, em julho de 1979 — Foto: Pedro Martinelli 2 de 7 Religiosas se reúnem na Praça de São Pedro, no Vaticano, em 16 de outubro de 1978, para aguardar a primeira aparição do Papa João Paulo II, recém-eleito — Foto: Pedro Martinelli X de 7 Publicidade 7 fotos 3 de 7 Clique de uma luta greco-romana nas Olimpíadas de Los Angeles, em 1984 — Foto: Pedro Martinelli 4 de 7 Na Copa do Mundo de 1982, na Espanha, Zico e Júnior comemoram o segundo gol do Brasil contra a Nova Zelândia. O jogo terminou em 4 x 0 — Foto: Pedro Martinelli X de 7 Publicidade 5 de 7 Uma visita inesperada surpreende o Papa João Paulo II durante celebração de missa ao ar livre, em Brasília, na sua primeira visita ao país, em 1980 — Foto: Pedro Martinelli 6 de 7 Aposentos dos cardeais no Vaticano em agosto de 1978, data do conclave que escolheu o Papa João Paulo I, sucessor de Paulo VI e antecessor do João Paulo II, que seria eleito dois meses depois — Foto: Pedro Martinelli X de 7 Publicidade 7 de 7 Registro feito durante uma de suas pescarias na Patagônia, um dos hobbies do fotógrafo (que usa moscas como iscas) — Foto: Pedro Martinelli Em livro, ex-fotógrafo do GLOBO recorda suas andanças pelo mundo em décadas de ofício Os filmes encharcados foram enviados à sede do GLOBO, no Rio. Com muito cuidado, os funcionários do laboratório conseguiram revelar as imagens, que estamparam a capa do jornal em 11 de fevereiro de 1973. “Dentro da canoa que levou os Villas-Bôas ao ponto onde estavam dois índios da tribo dos gigantes, o fotógrafo Pedro Martinelli fez um documentário completo de todos os lances — alguns dramáticos — que culminaram com a confraternização entre índios e brancos”, dizia o texto. Martinelli recorda essa e outras aventuras no livro “Olho no mundo”, celebração de uma vida dedicada ao fotojornalismo. As memórias de Martinelli, que bateu ponto no GLOBO de 1970 a 1975, foram coletadas por Carlos Maranhão, biógrafo do magnata da imprensa Roberto Civita (1936-2013). Nascido em Santo André (SP), Martinelli começou vendendo anúncios para a Gazeta Esportiva e lá encantou-se pela fotografia. Trabalhou em um punhado de jornais e revistas, do Diário do Grande ABC à Veja. Cobriu tragédias, Copas do Mundo, Olimpíadas, conclaves, a Revolução Sandinista da Nicarágua e fotografou Carla Perez para a Playboy. O fotógrafo Pedro Martinelli, que trabalhou no GLOBO entre 1970 e 1975 — Foto: Divulgação “Não adianta você ser um grande fotógrafo e não for um sujeito ousado, safo, descolado, entrão, até meio bandido e capaz de resolver qualquer tipo de problema com presença de espírito”, diz Martinelli no livro. Ele é um craque das “fotos roubadas”, isto é, tirada em situações adversas, sem que ninguém se dê conta. Flagrantes roubados Certa vez, ele e o repórter Etevaldo Dias foram ao Paraguai entrevistar o diretor da Itaipu Binacional. A construção da hidrelétrica ainda não começara, e o executivo lhes mostrou, em primeira mão, o projeto da barragem, mas não deixou que Martinelli o registrasse. Assim que o homem saiu da sala, Martinelli fotografou rapidamente o projeto — que acabou na capa do GLOBO. Em represália, os paraguaios cancelaram a entrevista do jornal com o ditador do país, Alfredo Stroessner. Martinelli desenvolveu técnicas para “fotos roubadas”: em vez de levar a câmara ao rosto, deixava-a na altura do peito e tossia na hora de apertar discretamente o botão, para ninguém ouvir o clique. — Quando recebia um novo equipamento do jornal, eu ia para a casa, fechava tudo, apagava as luzes e treinava por e tirar o filme no escuro, sem olhar para a máquina. A câmera era uma extensão do meu corpo — diz ele, autor de dois fotolivros sobre os moradores da floresta: “Amazônia, o povo das águas” e “Mulheres da Amazônia”. Hoje, com 76 anos, Martinelli só fotografa Pretinha, sua vira-lata. E com o celular. — Não sinto falta de fotografar, mas de publicar. Meu negócio é imprimir foto em jornal, em revista. Para mim, foto boa é aquela que vai para a primeira página. Serviço: ‘Olho no mundo’ Fotos: Pedro Martinelli. Texto: Carlos Maranhão. Editora: Terra Virgem. Páginas: 168. Preço: R$ 120.