Pesquisadoras analisam o que está por trás do fenômeno e quando se torna um problema 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 nostalgia — Foto: Magnific Na moda, cresce a busca por peças de brechó dos anos 1990. No cinema, a continuação de O Diabo Veste Prada, sucesso em 2006. Nas redes sociais, surgem cada vez mais páginas focadas em evocar nostalgia, como o perfil "A menina dos anos 2000". Não é só a estética, o passado, com seus sabores, cheiros e pessoas, traz segurança e conforto. O aumento desse tipo de conteúdo não é sem razão, segundo a psiquiatra Laiana Quagliato, doutora em saúde mental e professora adjunta na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). — Isso é possível porque o cérebro constrói conexões emocionais a partir da cultura. Isso se torna cada vez mais difundido pelas redes, mas é projetado pelas indústrias, que se beneficiam financeiramente quando compramos ou consumimos itens porque remetem ao passado. A nostalgia, em si, é lucrativa, porque é uma das emoções mais engajantes que existem, ela ativa os circuitos de recompensa do cérebro, que regulam a sensação de prazer — analisa. Outro ponto percebido pela especialista é como os mais jovens também se tornam alvo desta visão de um “passado melhor que o presente”. — Mesmo quem não vivenciou um determinado período de forma consciente, por exemplo, um adolescente de hoje que pensa em 2016 como um ano mais divertido para ter 15, 16 anos. Esse indivíduo vive essa nostalgia a partir da idealização que é construída nos produtos culturais — analisa. Para a psicóloga Priscila Gasparini, doutora em neuropsicologia pela Universidade de São Paulo (USP), o passado tem se tornado cada vez mais um refúgio, dado o cenário atual. — A intensificação da nostalgia nas redes sociais pode ser compreendida como uma resposta psíquica a um contexto marcado por aceleração do tempo, excesso de estímulos e instabilidade. Isso ocorre por essa geração faz um uso intenso da internet. E, com isso, os adultos jovens cresceram expostos a um volume muito alto de informações sobre crises globais, mudanças e incertezas sociais. A maneira como consumimos o mundo online influencia na nossa percepção do mundo — aponta. Quagliato explica que ocorre por essa geração cresceu com o uso intenso da internet, e, eventualmente, das redes sociais. A pesquisadora defende que os adultos jovens estão há anos expostos a um volume muito alto de informações sobre crises globais, mudanças e incertezas sociais. — A maneira como consumimos o mundo online influencia na nossa percepção do mundo. Por isso, muitos sentem que as coisas estão ruins e nunca vão mudar. Essa sensação está muito ligada à sobrecarga emocional, a qual cria um descompasso entre ter consciência e o que fazer pra trazer um futuro melhor — analisa. As redes conseguem capturar a atenção, transformando as memórias em objetos simbólicos compartilhados por todos, o que cria um circuito de validação coletiva. — É importante frisar que há um componente importante de idealização. A memória afetiva não é um registro fiel, mas uma reconstrução que tende a selecionar experiências positivas e atenuar conflitos. Por isso, é criada essa visão de um passado melhor, mais divertido e com maior valor. Em outras palavras, o passado é confortável porque já não vivemos mais nele — diz. O que é a nostalgia? A nostalgia é um campo de interesse de pesquisadores desde 1688, quando foi cunhada pelo médico suíço Johannes Hofer. Anteriormente, se referia a um sofrimento psíquico grave devido à saudade de casa. Em períodos mais recentes, o conceito vem sendo redescoberto. Segundo Krystine Batcho, professora de psicologia da LeMoyne College, nos Estados Unidos, uma das principais pesquisadoras no campo da nostalgia, ela se trata de um fio que interliga o que fomos, o que somos e o que queremos ser. “O que as une é que a nostalgia é uma experiência emocional que unifica. Um exemplo disso é que ela ajuda a consolidar nosso senso de quem somos, nosso eu, nossa identidade ao longo do tempo. Porque mudamos constantemente, de maneiras incríveis. Não somos nem de perto os mesmos de quando tínhamos 3 anos de idade, por exemplo. A nostalgia, ao nos motivar a lembrar o passado em nossas vidas, nos ajuda a nos reconectar com esse eu autêntico e a nos lembrar de quem fomos, para então compararmos isso com quem sentimos que somos hoje”, afirma, em entrevista à Associação de Psicologia Americana (American Psychological Association). A criadora do “Inventário de Nostalgia”, que avalia o nível de nostalgia individual a partir de um questionário, defende que existe também outro tipo de nostalgia: a histórica, também chamada de nostalgia vicária, quando se refere a uma vontade de voltar a um período distante no tempo que não foi vivido pelo indivíduo. Nesse caso, não estamos focados nos bons momentos vividos quando ganhamos a primeira bicicleta, mas no que está acontecendo na sala de aula após o novo episódio de uma série assistida por todos da classe. “Nostalgia pessoal significa sentir saudade ou bem-estar por aspectos da sua vida que você já vivenciou e que estão armazenados na sua memória. Meus dados iniciais demonstraram que os indivíduos podem experimentar muita nostalgia de um tipo e pouca de outro. São fenômenos relativamente não correlacionados ou independentes. Não são a mesma coisa”, argumenta. Quagliato evidencia que, independentemente do tipo, a nostalgia atua como um ponto referencial. — Ela ajuda as pessoas a se organizarem e a organizarem sua experiência ao longo do tempo, dando a sensação de continuidade para o ser humano. Isso é um mecanismo de evolução, pois nos mostra onde estivemos, onde chegamos e nos leva a refletir para onde podemos ir — explica. Quando se torna um problema? Um sinal vermelho quanto à nostalgia é quando ela extrapola seu papel na maneira que enxergamos a vida e nos torna reféns do passado. O excesso do que “já foi” provoca uma ruminação de pensamentos intensa, que pode até mesmo paralisar a pessoa em suas decisões e ações, como explica Quagliato. — Quando o passado é o foco principal, com tempo gasto idealizando o que já passou, o agora perde espaço. O problema não é sentir nostalgia, é quando esse jovem passa a depender da passado para se sentir bem e não consegue estabelecer uma conexão com o presente — observa a psiquiatra. Para se proteger dessa relação excessiva, ela recomenda iniciar um processo de busca por experiências que devolvam valor ao presente e ao futuro. — Muitos jovens podem sentir que as coisas estão tão ruins e nunca vão mudar. Essa sensação está muito ligada à sobrecarga emocional e à percepção de falta de controle. No entanto, em pequena escala, nós temos sim um certo controle. Então, uma alternativa é buscar se comprometer com atividades no próprio bairro, como fazer um mutirão para arrecadar agasalhos para quem precisa. Também anotar e escrever os próprios pensamentos — orienta Laiana. Além disso, gerar motivação dentro da própria rotina pode ajudar a se manter no presente. — O nosso cérebro precisa perceber que o esforço vai gerar um resultado para recuperar a motivação. Você pode reorganizar o ambiente de trabalho, fazer uma atividade física curta ou ligar para um amigo e marcar de sair. Isso aumenta o pertencimento, traz motivação e diminui a tendência de ruminar o que já passou. Em um contexto maior, pode trazer a percepção de que o presente está nas suas mãos e pode trazer coisas boas — conclui.