Meus cadernos de trabalho, que têm de gráficos coloridos a ideias por testar, de descobertas a perguntas novas, de anotações de palestras alheias a pontuação do carteado em família, também têm várias entradas chamadas coisas que não posso dizer. São anotações sobre calhordices alheias para eu tentar entender depois, relatos das filhadaputices de colegas cientistas comigo para eu não me deixar esquecer feito uma bocó ingênua, desabafos sobre frustrações com alunos que deixam a desejar, indignação com teimosia científica ignorante, irritação com organizadores de evento absolutamente desorganizados e desrespeitosos. São comentários que só me prejudicariam, sem acrescentar nada a mais ninguém, se fossem feitos em voz alta.
Mas são comentários que eu preciso fazer para mim mesma, tanto como auxílio à minha memória falível –pois indagações, indignações, frustrações e irritações alimentam boas ideias no futuro– como também válvula de escape que me permite parar de pensar no assunto e literalmente virar a página.
Sabemos pensar em silêncio, sem expressar nosso estado mental em palavras, graças às permitências de um córtex pré-frontal cheio de neurônios. Mas dá um trabalho do cão, porque os pensamentos, que são ações mentais, são evocados junto com as ações musculares que eles representam, começando com falar as palavras. Pensar numa frase faz o cérebro se preparar para dizer as tais palavras, o que a gente sente como "ter vontade" de falar.






