Como desgraça pouca é bobagem, eu resolvi não só escrever meus próprios livros didáticos –acrescentando à angústia das dezenas de artigos científicos por escrever– mas também ilustrá-los. Não que meus dotes artísticos deem conta de grandes coisas; o ponto é justamente que não dão, então minhas ilustrações são simples e se atêm ao principal. Isso é exatamente o que eu preciso, pois o objetivo desses livros não é ensinar detalhes, e sim os princípios fundamentais: os conceitos, definições e insights que nos livros tradicionais ficam soterrados em montanhas de informação.
Minhas ilustrações começam como desenhos no iPad que então precisam ser coloridos para dar destaque ao assunto da vez. O aplicativo simples que eu uso, Notability, me permite colorir facilmente, mas com uma condição: cada cor em um espaço tem que ser colorida de uma vez só, sem tirar o lápis da tela. Como estou colorindo por dentro de córtices cerebrais e cerebelares cheios de dobras, a tarefa por vezes leva vários minutos ininterruptos, sem tirar nem lápis nem olhos da tela.
E então entendi, finalmente, a mágica dos livros de colorir.
Sim, gostamos da sensação de controle sobre nossas ações, da oportunidade de escolher qual cor vai aonde, do sentimento de competência em manter a cor dentro das linhas (todos aqueles anos no jardim de infância serviram para alguma coisa!). Gostamos da sensação de tirar os lápis coloridos da gaveta e vê-los espalhados na mesa, como se fôssemos artistas, e, se não há lápis na gaveta, gostamos ainda mais de ter uma desculpa para ir à papelaria comprá-los em lindas caixas e estojos para nós mesmos, e não para filhos ou netos.









