Ansiedade, excesso de telas e rotina acelerada levam adultos a buscar aprendizado de canto e instrumento como hobby, apontam escolas e especialistas 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 A aposentada Denise Marques, sentada de vestido claro, se apresenta para amigos e familiares em seu aniversário — Foto: Roberto Vianna RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 25/07/2026 - 19:59 Aulas de música crescem entre adultos como hobby e terapia mental Com a rotina acelerada e o excesso de telas, adultos têm buscado aulas de música como hobby e forma de melhorar a saúde mental. Menos de 20% dos alunos das escolas de música visam carreira, optando por lazer e bem-estar. A música proporciona benefícios cognitivos e emocionais, mas deve ser diferenciada da musicoterapia. O aumento na procura por aulas presenciais reflete a busca por conexão e alívio do estresse. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Diogo Madeira, de 29 anos, não quer ser artista. Após um período de frustração e perdas pessoais, decidiu aprender a tocar um instrumento como forma de aliviar a tensão do cotidiano. Hoje, seu compromisso semanal com as aulas de guitarra e contrabaixo se tornaram “uma forma de terapia”, diz ele. — Saio da aula muito melhor do que entrei. É um momento em que consigo esquecer os problemas e focar apenas na música — revela. Histórias como a de Diogo são cada vez mais comuns nas escolas de música da região. Na Starling Academy of Music, instalada na Barra da Tijuca desde 2015, a mudança de perfil é evidente. Segundo Mateus Starling, fundador da escola, hoje, menos de 20% dos alunos pensam em viver de música. A maior parte busca uma atividade ligada ao lazer e ao bem-estar. — Durante muitos anos recebíamos principalmente pessoas que queriam seguir carreira. Hoje vemos um movimento diferente. Muitos chegam em busca de qualidade de vida, de um hobby, da satisfação de aprender um instrumento — conta. Na Starling, a busca por aulas presenciais aumentou — Foto: Divulgação/Mikail Gritlet O mesmo movimento é percebido pela professora de canto e fonoaudióloga Patricia Maia. Embora atenda principalmente cantores profissionais, ela diz que aumentou a procura de alunos sem intenção de transformar a música em profissão: — Muitas chegam para diminuir a ansiedade. Outras querem desenvolver a oratória, ganhar confiança ou perder a timidez. Também vejo pessoas montando bandas com amigos para se divertir, ou na busca de atividades fora das telas. Me parece que existe uma nova necessidade de conexão. Essa necessidade de convivência ajuda a explica outra mudança percebida nas escolas. Apesar de manter cerca de 600 alunos no ensino on-line, a Starling Academy registrou aumento na procura pelo ensino presencial este ano. — Os alunos se cansaram das telas — diz Tatiany Starling, gestora do grupo, que dobrou a quantidade de eventos presenciais do ano passado para cá. Música por prazer A aposentada Denise Marques, de 62 anos, encontrou nas aulas presenciais uma forma de realizar um sonho antigo: aprender a cantar. Tomou tanto gosto que se apresentou no seu aniversário e se prepara para cantar no casamento da filha. — O importante é continuar aprendendo, e esse é um hobby maravilhoso — diz. Denise durante apresentação para amigos e familiares em seu aniversário — Foto: Divulgação/Roberto Vianna Na Música & Cia, criada há 15 anos na Barra da Tijuca, adultos e idosos passaram a procurar aulas em número superior ao de crianças e adolescentes. Embora a instituição continue formando profissionais, a maior parte dos matriculados busca entretenimento. Para Chrystina Barros, pesquisadora do Instituto de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração, escola de negócios da UFRJ, e certificada em Ciência da Felicidade pela Universidade de Berkley, o fenômeno reflete mudanças aceleradas pela pandemia. — Vivemos uma rotina marcada por excesso de informação, produtividade e tempo de tela. Aprender um instrumento reúne diversos fatores associados ao bem-estar. A pessoa acompanha a própria evolução, fortalece a autoconfiança, entra em estado de concentração profunda e se desconecta das pressões do dia — explica. Embora o violão, o piano, a guitarra e a bateria sejam os instrumentos de maior apelo, nos últimos dois anos chama a atenção o interesse pelo violino, dizem as escolas, especialmente entre jovens adultos interessados em trilhas sonoras de animes, games e conteúdos publicados nas redes sociais. A neurologista e geriatra Vilma Camara, professora doutora emérita da UFF, explica que a música traz benefícios únicos. — A música atua nas funções cerebrais de forma simultânea, como nenhuma outra atividade. Ativa lembranças antigas mesmo em pacientes com doenças neurodegenerativas, como Alzheimer — ensina. — Nunca é tarde para receber esse estímulo. Quando se ouve música, ambos os hemisférios do cérebro trabalham para decodificar ritmo, melodia, timbre e letra. O sistema límbico, região da emoção,é ativado. Para Artur Costa, psicanalista da Associação Brasileira de Psicanálise Clínica, o aumento da procura pelas aulas de música revela uma preocupação com o prazer em uma rotina dominada pela lógica de produtividade: — Aprender um instrumento ou canto exige paciência, escuta e presença, o oposto da lógica atual. Muitos alunos não estão apenas iniciando um curso. Estão retomando um equilíbrio. Alunos de guitarra e violão interageam durante as aulas — Foto: Divulgação/Mikail Gritlet Já Bárbara Penteado Cabral, presidente da Associação de Musicoterapia do Estado do Rio de Janeiro, pontua a necessidade de diferenciar o lazer proporcionado pela música daquilo que constitui a musicoterapia. — Assim como tem o poder de reduzir o estresse, a música, se usada sem critério clínico, pode desencadear crises e angústias. As aulas cumprem um papel de aprendizado e podem gerar bem-estar, mas o processo terapêutico só acontece quando é conduzido por um musicoterapeuta qualificado — salienta.