O consumo de som no dia a dia pode se conectar a diferentes formas de concentração, energia e percepção emocional A influência da música no foco e no humor em tempos de excesso de estímulos — Foto: Freepik RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 19/05/2026 - 18:22 Música e Saúde Mental: Impactos do Consumo Sonoro no Foco e Humor A relação entre música, atenção e saúde mental é tema crescente em pesquisas, destacando como o consumo sonoro impacta foco, humor e percepção de energia. Especialistas, como o psiquiatra João Borzino, alertam para "ansiedade sonora" e a necessidade de reeducação cerebral frente ao consumo fragmentado de mídia. Estratégias como "dieta sonora" e musicoterapia são exploradas como apoio à saúde mental, reforçando a importância de um consumo sonoro consciente e equilibrado. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A relação entre música, atenção e saúde mental tem ganhado espaço tanto em pesquisas quanto em discussões sobre rotina e bem-estar. Embora o som seja frequentemente associado a prazer e relaxamento, especialistas apontam que a forma como ele é consumido ao longo do dia pode influenciar foco, humor e percepção de energia. O DJ Torrada observa, a partir de sua experiência com música e público, que muitos relatos em torno de cansaço mental e dificuldade de concentração surgem mesmo quando não há mudanças significativas na rotina. Para ele, o padrão de consumo sonoro pode ter impacto direto nesse processo. "A playlist que você escolhe de manhã regula seu sistema de recompensa o dia inteiro. Não é frescura. A ciência confirma", afirma. Do ponto de vista científico, estudos em neurociência ajudam a contextualizar essa percepção. Um trabalho do Montreal Neurological Institute apontou que músicas consideradas prazerosas ativam a liberação de dopamina no estriado, região do cérebro ligada ao sistema de recompensa. Ainda assim, especialistas em saúde mental destacam que o efeito mais relevante não está apenas na resposta imediata, mas na repetição constante de estímulos. O psiquiatra João Borzino explica que a combinação de diferentes fontes de estímulo ao mesmo tempo, como notificações, vídeos curtos, rádio e podcasts, pode impactar a forma como o cérebro organiza a atenção. Segundo ele, esse padrão favorece a busca por recompensas rápidas, o que reduz a tolerância ao silêncio e contribui para a sensação de mente acelerada. "O resultado é menos tolerância ao silêncio, queda de concentração e aquela sensação de ‘mente acelerada’ que muita gente sente", diz. Nesse contexto, o termo "ansiedade sonora" passa a ser usado para descrever não apenas uma preferência musical, mas uma adaptação do sistema nervoso a estímulos constantes. "É uma desregulação do circuito de motivação. E precisa ser tratada como tal", explica Borzino. No consultório, ele relata que uma queixa frequente envolve a dificuldade de foco associada a hábitos cotidianos de consumo de mídia. "A pessoa pula de música a cada 15 segundos, trabalha com TV ligada, dorme com ruído. Isso muda completamente a arquitetura da atenção. O foco fica superficial, a motivação some, o prazer em tarefas longas desaparece", destaca. Outro ponto recorrente é a perda de tolerância ao silêncio, que, segundo o psiquiatra, pode afetar diretamente o bem-estar emocional. "Isso favorece irritabilidade, piora da qualidade do sono e aumento da busca por estímulos cada vez mais intensos", acrescenta. Para Borzino, o problema não está na música em si, mas no excesso e na forma fragmentada de consumo. "Nada disso significa falta de força de vontade. Significa que o cérebro entrou em um novo padrão e precisa ser reeducado", observa. Ele reforça ainda a importância de uma abordagem mais ampla para saúde mental, que vá além do uso de dispositivos: "Não basta falar em desligar o celular. Precisamos falar de higiene sonora, ritmo circadiano, sono, movimento, atividade física e saúde emocional." A relação com a música e seus possíveis efeitos no foco, humor e cansaço mental — Foto: Freepik Dentro desse cenário, o DJ Torrada ressalta que a música também pode ser usada de forma estratégica. Segundo ele, diferentes padrões sonoros influenciam estados mentais distintos. "Batidas em 60–80 BPM acalmam, música instrumental melhora o foco profundo, e o silêncio programado protege a dopamina. Isso tem impacto direto em produtividade e bem-estar", detalha. Em alguns contextos, práticas como "dieta sonora" e musicoterapia vêm sendo estudadas como apoio complementar no manejo da ansiedade, sempre com acompanhamento profissional. "Não existe playlist milagrosa. Esses recursos podem auxiliar dentro de um tratamento global. Não substituem terapia, exercício e acompanhamento médico", pontua Borzino. Pesquisas em áreas como neurofeedback e musicoterapia ampliaram o interesse científico pelo tema, com apresentações em eventos da World Federation of Music Therapy. Ainda assim, especialistas reforçam que esses recursos não devem ser vistos como solução isolada. Para o DJ Torrada, a principal mudança não está apenas no comportamento, mas na forma como as pessoas se relacionam com o som. "Muitos dizem que, pela primeira vez em anos, estão ouvindo o próprio pensamento. Isso não é perder criatividade. É aprender uma nova forma de se relacionar com o som", reflete. Ao final, ele resume a ideia central de forma direta: "Regular sua dopamina com música não é sobre parar de ouvir. É sobre começar a escolher o que você deixa entrar."