Todos os dias eu recebo pedidos de aconselhamento. Muda o contexto, mas o cerne da questão é sempre o mesmo: alguém convicto de que tem uma excelente história para contar, mas não sabe como colocar no papel.

Ou já escreveu um livro que considera muito bom e pede minha ajuda para publicar. Ou tem a história na cabeça e quer que eu escreva. Quando eu ouvir, vou me encantar, eles garantem.

A grande maioria quer mesmo que eu leia o que escreveram e diga o que achei. Sempre com a expectativa de que vou achar maravilhoso. Se eu não achar, é porque sou má pessoa.

Antes eu acreditava que poderia fazer algo. Entre os anos de 2009 e 2023, estive convicta de que poderia ajudar as pessoas no ofício da escrita. Criei cursos, ateliês, mentorias, oficinas, até dois projetos de pós-graduação eu desenvolvi e fiz funcionar. Turmas sempre lotadas, tudo fluindo, mas desisti. Há um abismo incontornável que não tenho como conciliar.

O primeiro grande problema está no fato de que eu acredito em talento, em dom, predestinação, destino, missão, tudo isso. Acredito mesmo. Por algum motivo, reconheço os realmente talentosos pelo modo de tratar o seu ofício, o tema, o processo. Em geral eles carregam o projeto de escrita muito mais na alma do que no ego. Não parece cerebral, é outro fluxo. São raríssimos.