Reivindico o direito de não ter opinião sobre tudo e de escrever sobre perfume numa semana em que o mundo está pegando fogo Dê ao cérebro um descanso real — Foto: Seba Cestaro/The New York Times RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você Diante do excesso de notícias globais, o limite biológico humano é testado. O cérebro consegue gerenciar apenas cerca de 150 relações sociais estáveis simultaneamente. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Você é colunista de jornal. Seu trabalho é escrever uma coluna por semana. Que moleza! Olha o tanto de assunto que tem no mundo: Trump ameaçando o Brasil com tarifas e destruindo o Império Americano à velocidade da luz; o Banco Master, essa maravilha tropicalista e democrática, inexplicável a qualquer ET que escape do novo filme do Spielberg e venha a se interessar pela lógica financeira; o nosso Congresso abaixo de qualquer crítica, aquele ajuntamento sórdido de péssimos humanos que aprovou, em tempo recorde, novas barreiras ao aborto legal para meninas menores de 14 anos vítimas de estupro (crianças! vítimas de estupro!); as balas perdidas; as bets; os anúncios obscenos das bets, que exibem personagens fofinhos e cenários de desenho animado na TV aberta; os influenciadores das bets, que desfilam uma riqueza nefasta nas redes sociais, como se fosse possível juntar aquele dinheiro de forma honesta; a guerra do Oriente Médio que não acaba nunca; a guerra da Ucrânia que não acaba nunca; a onda devastadora de feminicídios; o antissemitismo anos 1930 que virou tendência progressista; o colapso da educação; as emendas parlamentares; o governo; a oposição; a família Bolsonaro; os fãs da família Bolsonaro; o estreito de Hormuz; o Netanyahu; a ditadura do algoritmo e o mundo polarizado; a ideia esdrúxula de que juízes com salários que não cabem no teto constitucional precisam de auxílio para pagar aluguel; os golpistas da internet; os golpistas do telefone; os golpistas do WhatsApp; os preenchimentos labiais e as bundas infladas que passam por beleza nas redes sociais; as redes sociais; a mulher que torturava e matava animais em lives para atender a um mercado internacional de psicopatas; o ano eleitoral; aquelas horrendas luzes de led colorido que iluminam os palácios em Brasília à noite, um atentado arquitetônico e estético sem tamanho; os apartamentos de 20 metros quadrados vendidos como estilo de vida; as mudanças climáticas; os bilionários da tecnologia construindo foguetes; os bilionários da tecnologia construindo bunkers porque há foguetes demais no mundo; os bilionários da tecnologia; a poda criminosa das árvores em frente ao Flamengo, que merece ir para a segunda divisão até elas voltarem a dar sombra. Só que eu não quero escrever sobre nada disso!!! Eu não aguento mais nem ler sobre isso!!! Já nem é questão de ser ou de não ser colunista; é estrutural, biológico. O ser humano simplesmente não foi projetado para processar — e resistir — a tudo isso. Nós éramos para ser meia dúzia de gatos pingados vivendo em pequenas comunidades, conhecendo pelo nome todas as pessoas que cruzavam o nosso caminho e sabendo apenas o que acontecia dentro da distância que os nossos pés eram capazes de percorrer. Existe até um número para isso: em 1990, o antropólogo inglês Robin Dunbar concluiu que o cérebro humano consegue manter, no máximo, cerca de 150 relacionamentos sociais estáveis ao mesmo tempo. Cento e cinquenta. Não todos os habitantes do planeta, mais os influenciadores das bets, os bilionários da tecnologia, os ministros do STF, os generais iranianos, os negociadores do Banco Master e o Cláudio Castro. Reivindico o direito de passar uma tarde olhando para o teto, de não ter opinião sobre tudo e de escrever sobre perfume numa semana em que o mundo está pegando fogo. Justamente porque o mundo está pegando fogo.