O colunista Renato Bernhoeft reflete sobre as competências necessárias em uma era de inteligência artificial, excesso de informação e longevidade Segundo Yuval Noah Harari, escritor e pesquisador israelense, no seu último livro “Nexus - uma breve história das redes de informação, da Idade da Pedra à Inteligência Artificial", nos últimos 100 mil anos, nós, sapiens, acumulamos muito poder. Ele escreve: “mas, apesar de todas as nossas descobertas, invenções e conquistas, enfrentamos uma crise existencial sem precedentes, com o mundo à beira do colapso ecológico, tensões políticas crescentes e desinformação por todos os cantos. Estamos entrando a toda velocidade na era da inteligência artificial, uma rede de informação não humana que põe nossa própria existência em perigo.” De acordo com o autor, o nosso próprio olhar para o passado mostra desde sempre a tendência humana em criar coisas poderosas com consequências indesejadas, seja a máquina a vapor ou a IA. Prossegue ele ainda dizendo que "a tendência de invocar poderes que não sabemos controlar provém não da psicologia individual, e sim dos vários tipos de cooperação da nossa espécie.” Para Harari, a humanidade obtém enorme poder construindo grandes redes de cooperação, mas essas redes são construídas de uma forma que predispõe os humanos a usarem o poder de um modo pouco sábio. Nosso problema, então, é um problema de rede. O crescente aumento e complexidade da informação em nosso mundo atual, e que tem sua origem nos primórdios da criação humana, é também abordado pelo filósofo coreano Byung-Chul Han. No seu livro “Não Coisas – Reviravoltas do Mundo da Vida”, ele afirma que “hoje nos encontramos em uma transição da era das coisas para a era das não-coisas. Não as coisas, mas as informações determinam o mundo da vida. Nós não habitamos mais a terra e o céu, mas a Google Earth e Cloud. O mundo está se tornando cada vez mais incompreensível, mais nublado e fantasmagórico. Nada é palpável e tangível.” Para colunista, o maior desafio pode não ser tecnológico, mas desenvolver discernimento, propósito e capacidade de reinvenção — Foto: Pexels Ou seja, cada vez mais o ser humano se alimenta e se mantém sob os efeitos da informação. Seja ela verdadeira ou falsa. Mas talvez exista aqui uma reflexão ainda mais profunda. Em uma sociedade em que viveremos mais tempo, teremos também mais transições ao longo da vida. Com profissões desaparecerão e novas surgirão, identidades precisarão ser reconstruídas e muitos dos referenciais que durante décadas organizavam a existência humana, especialmente o trabalho, deixarão de oferecer as mesmas respostas. Se antes o desafio era ter acesso à informação, hoje parece ser desenvolver discernimento, senso crítico e, principalmente, capacidade de construir significado em meio ao excesso de estímulos. A própria inteligência artificial, ao mesmo tempo em que amplia extraordinariamente nossa capacidade de produção e acesso ao conhecimento, também nos obriga a refletir sobre o que continuará sendo essencialmente humano. Em um mundo cada vez mais automatizado, talvez precisemos aprender a desenvolver competências menos técnicas e mais humanas: vínculos, propósito, criatividade, empatia e capacidade de reinvenção. A longevidade contemporânea não nos desafia apenas a viver mais, mas a continuar encontrando sentido. E isso exige uma nova ecologia mental, uma relação mais consciente com a informação, com o tempo, com o silêncio e até mesmo com nossa atenção. Felicidade ou sofrimento, alegria ou tristeza, solidariedade ou individualismo são manifestações que a informação provoca. Resta estar atento a todos seus efeitos, seja sobre nossa conduta individual ou coletiva. Talvez o grande desafio deste século não seja produzir mais informação, mas formar seres humanos capazes de atravessar tantas mudanças sem perder a própria humanidade. Renato Bernhoeft é fundador e presidente do conselho da höft consultoria.
O desafio de permanecer humano
O colunista Renato Bernhoeft reflete sobre as competências necessárias em uma era de inteligência artificial, excesso de informação e longevidade








