Inteligência artificial pode estar transformando a própria capacidade cognitiva 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Robô humanoide no estande da Schaeffler AG em Hanôver: tendência irreversível com chegada da inteligência artificial — Foto: RONNY HARTMANN/AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 15/07/2026 - 19:22 IA Levanta Debate sobre Impacto na Cognição e Privacidade Mental A inteligência artificial (IA) está gerando debates sobre seu impacto na capacidade cognitiva humana. Enquanto alguns acreditam que ela enriquece nossas habilidades, outros argumentam que empobrece o pensamento. A IA pode transformar a cognição, substituindo o pensamento profundo por respostas rápidas e a memória por buscas instantâneas. Além disso, a tecnologia levanta questões sobre privacidade mental e democracia, sugerindo a necessidade urgente de proteger capacidades humanas essenciais. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Raro é o dia em que a mídia não aborda os efeitos da inteligência artificial (IA) sobre a mente humana. Há os que afirmam, categoricamente, que ela está nos empobrecendo e os que, com igual convicção, dizem que potencializa nossas capacidades. Ao contrário de efeitos mais tangíveis — economia, meio ambiente, segurança —, as alterações no cérebro exigem longos períodos de observação e metodologias de pesquisa rigorosas. O que circula hoje está mais para especulação do que para evidência científica — os efeitos, inclusive, dependem da forma e da intensidade com que a IA é utilizada —, mas vale acompanhar. Os livros ampliaram nossa memória coletiva; os telescópios, nossa visão; os dispositivos móveis encurtaram distâncias e nos permitiram viver realidades múltiplas. Com a IA, pela primeira vez, a tecnologia não amplia um sentido: ela pode estar transformando a própria capacidade cognitiva. Um estudo recente de Baillie Gifford lembra que isso já aconteceu antes: a alfabetização, ao se espalhar por bilhões de pessoas, reorganizou fisicamente o cérebro humano, sem mutação genética, apenas por prática cultural. A IA, argumenta o estudo, seria a próxima grande reformatação: uma tecnologia que nos reconfigura por dentro, trocando pensamento profundo por respostas rápidas, memória por busca instantânea, julgamento próprio por sugestão algorítmica. O risco não é apenas individual. Um simpósio acadêmico recente sinalizou que, embora a IA apresente oportunidades únicas para fortalecer a democracia, ela também traz riscos relevantes aos princípios e valores democráticos. Vídeos e imagens gerados por IA já corroem a confiança em evidências visuais, historicamente base do julgamento público compartilhado (“uma imagem vale mais do que mil palavras”). Agentes de IA que selecionam e resumem notícias tornam-se guardiões invisíveis do que vemos, reforçando bolhas em vez de expor divergências — combustível básico de qualquer democracia saudável. Mais radical é o avanço sobre a última fronteira da privacidade: a mente. As interfaces cérebro-computador, como as desenvolvidas pela Neuralink, já não se limitam a interpretar comandos motores; podem, em tese, decodificar padrões neurais ligados a emoções, orientações e até atitudes políticas. Se o voto secreto existe para proteger o eleitor de coerção, o que significa a democracia quando o pensamento pode ser lido por um algoritmo? Pesquisadores já defendem a criação de neurodireitos — um novo patamar de proteção legal que trataria dados neurais como categoria sensível, sujeita a garantias equivalentes às de direitos humanos. A competição acirrada entre os provedores de IA gera hipervalorização de “pequenos” avanços, inclusive com o uso intencional de termos associados ao universo humano. Uma polêmica recente envolvendo a Anthropic, criadora do chatbot Claude, ilustra bem esse cenário: em julho, a empresa publicou uma pesquisa descrevendo um espaço interno do modelo — batizado de “J-Space” — que ele ativaria para elaborar respostas antes de expressá-las em texto, usando repetidamente a palavra “consciência” para descrever esse mecanismo. A repercussão foi imediata: influenciadores e parte da imprensa trataram o achado quase como prova de que os chatbots de IA já têm algo semelhante à experiência humana; críticos apontaram, com razão, que se tratava de uma técnica de interpretabilidade, não de uma descoberta sobre experiência subjetiva. Nada disso significa que IA deva ser rejeitada, dados os extraordinários benefícios que já traz em áreas distintas. O desafio agora não é escolher entre usar ou não a IA, mas decidir, com urgência e de forma coletiva, quais capacidades humanas devem ser protegidas. *Dora Kaufman, professora na PUC-SP e colunista da Época Negócios, é autora do livro “Desmistificando a inteligência artificial” e coautora de "Tecnologias da invenção — inteligência artificial, criatividade e arte", com Giselle Beiguelman