Expansão da IA passa a ser condicionada por custo, acesso a recursos naturais e previsibilidade regulatória 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Data center em São Bernardo do Campo (SP) — Foto: Edilson Dantas / O Globo/24/01/2025 RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 08/07/2026 - 21:46 Desafios da IA no Brasil: Infraestrutura, Recursos e Regulação A expansão da inteligência artificial (IA) enfrenta desafios devido a limitações físicas e regulatórias. A crescente demanda por infraestrutura, como data centers, pressiona recursos naturais e sistemas elétricos, especialmente em termos de energia e água. A falta de regulamentação específica no Brasil agrava a situação, aumentando custos e riscos. A viabilidade da IA agora depende de uma coordenação eficaz entre recursos naturais, infraestrutura e regulação, destacando a necessidade de soluções sustentáveis e regulatórias coerentes. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO O avanço da inteligência artificial (IA) já enfrenta um limite concreto: a disponibilidade de recursos naturais e a capacidade regulatória de viabilizar sua infraestrutura. A nova escala dos data centers ilustra essa inflexão. Projetos antes na faixa de 20 megawatts avançam para mais de 100 megawatts, enquanto os investimentos migram de milhões de reais para bilhões de dólares. Essa expansão já pressiona o sistema elétrico, com dezenas de pedidos de conexão direta à rede de transmissão. Parte aprovada, parte ainda em análise pelo Operador Nacional do Sistema (ONS). O principal vetor de tensão não está apenas na energia. A operação desses data centers, especialmente em aplicações de IA, tem ampliado o uso de sistemas de resfriamento por evaporação, intensivos em água. Em regiões de estresse hídrico, esse consumo passa a competir diretamente com usos prioritários, como o abastecimento humano. Há alternativas, como o resfriamento líquido em circuito fechado (liquid cooling), que reduz significativamente o water usage effectiveness, indicador que relaciona consumo de água e energia. No entanto, essa opção exige investimentos mais elevados, deslocando a decisão para um equilíbrio entre custo, eficiência e viabilidade regulatória. É nesse ponto que a expansão da IA encontra seu principal limite: a coordenação entre infraestrutura, recursos naturais e regulação, e esse desafio se agrava pela fragmentação regulatória. Hoje no Brasil, 22 das 27 unidades da Federação não têm regras específicas para o licenciamento de data centers. Isso leva à adoção de critérios distintos para projetos semelhantes e reduz previsibilidade, elevando custos e riscos. Em cenários de escassez, decisões administrativas já têm considerado o impacto hídrico como fator determinante, com indeferimento de licenças ambientais. O modelo de licenciamento, historicamente orientado a projetos industriais isolados, passa a lidar com empreendimentos que dependem de estruturas interligadas — energia, água e conectividade — e geram impactos cumulativos. Na prática, isso tem exposto fragilidades, como subdimensionamento de impactos, fragmentação de projetos e uso de estudos simplificados em operações de grande porte. Ao mesmo tempo, esses ativos concentram uma dupla dimensão: são infraestrutura física crítica e base de fluxos digitais transnacionais. Isso adiciona exigências relacionadas à governança de dados, como transferência internacional (LGPD) e estruturas de responsabilidade compartilhada entre operadores globais. O efeito é direto: a disponibilidade de recursos naturais e a segurança regulatória passam a condicionar a viabilidade dos investimentos. Em regiões com maior vulnerabilidade hídrica ou socioambiental, projetos tendem a concentrar impactos locais, nem sempre compensados na mesma escala pelos benefícios econômicos prometidos. O Brasil reúne vantagens relevantes, como uma matriz energética majoritariamente renovável. Mas transformar esse potencial em atração efetiva de investimentos dependerá de maior coordenação entre variáveis ambientais, energéticas e digitais. A tendência é de agravamento desse quadro. O aumento de temperaturas e a maior frequência de eventos extremos elevam a demanda por resfriamento e intensificam o uso de água, ampliando a pressão sobre territórios já sensíveis. Nesse contexto, a “inteligência” da IA deixa de ser apenas digital. Sua viabilidade passa a depender da capacidade de operar com eficiência no uso de recursos físicos e dentro de um ambiente regulatório coerente. No limite, a expansão da IA deixa de ser apenas uma decisão tecnológica e passa a ser condicionada por custo, acesso a recursos naturais e previsibilidade regulatória. *Ana Carolina Famá e Lorena Botelho são sócias do escritório Urbano Vitalino Advogados