Desde que surgiu o ChatGPT, a questão é repetida: será que as máquinas aprenderão a contar boas histórias? Produzirão contos, crônicas, romances, poemas, peças, roteiros de filmes e séries com profundidade, graça, beleza? Na mesma seara, em entrevistas com escritores virou pergunta obrigatória "Você usa IA no seu trabalho?".

Outro dia, num bar, um cara queria me convencer que se eu criasse os personagens, uma trama e pedisse pra uma dessas ferramentas misturar, sairiam ótimas cenas. Ele não entendia por que eu insistia no método anacrônico de buscar ideias dentro da minha cabeça.

Grande parte da graça de escrever está em descobrir sobre o que estamos escrevendo. Na maior parte das vezes as histórias não brotam prontas na cabeça de um escritor. O que aparece é uma imagem. Uma frase. Uma cena. Um fiozinho que o inconsciente lança do fundo de suas Fossas Marianas e que devemos puxar, até desenrolar todo o novelo. O cerne deste ofício é o processo, não uma noite de autógrafos ou uma estreia na TV.Um belo dia surgiu na cabeça do escritor mineiro Campos de Carvalho um título: "A lua vem da Ásia". Ele não tinha a menor ideia do que significava. Sentou-se à máquina de escrever e depois de meses investigando apenas com as duas mãos e o sentimento do mundo, como diria um conterrâneo seu, terminou a história que começa assim: "Aos 16 anos matei meu professor de lógica. Invocando a legítima defesa —e qual defesa seria mais legítima?— logrei ser absolvido por cinco votos a dois, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris. Deixei crescer a barba em pensamento, comprei um par de óculos para míope, e passava as noites espiando o céu estrelado, um cigarro entre os dedos. Chamava-me então Adilson, mas logo mudei para Heitor, depois Ruy Barbo, depois finalmente Astrogildo, que é como me chamo ainda hoje, quando me chamo."