Enquanto a IA não tomar gosto por intertextos, metalinguagem e ironia, meu emprego está garantido 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Imagem gerada por IA - ChatGPT — Foto: Imagem gerada por IA - ChatGPT Um espectro ronda a vida de quem escreve — o espectro da IA. Ela está para o escritor preguiçoso como o auto-tune para o cantor desafinado ou o dublê de corpo para quem precisa sair bem na fita apesar das inseguranças, dos erros e das perebas. Ou, ainda, como o para o fotógrafo sem muito jeito com enquadramento, alinhamento e exposição. Não opera o milagre de converter água em vinho, mas faz uma reestruturaçãozinha molecular que, num clique, transforma seu rascunho em arte final. E, numa espécie de harmonização facial, deixa tudo com a mesma cara — não necessariamente de uma Bruna Lombardi ou de um Marlon Brando. Pelo que deduzo da leitura de jornais, portais de notícias e redes sociais, a IA já deve ser das principais criadoras de conteúdo (no bom sentido) dessas mídias. Chegou até mesmo à oficina literária que coordeno: de uma hora para outra, pessoas sem nada em comum abriram mão de suas virtudes e deram de escrever com os mesmíssimos vícios. É que basta dar um tema à IA, e ela forma um mapa mental, estuda abordagens, reúne informações, coteja dados, descarta os irrelevantes, gera alternativas, avalia os prós e contras de cada uma, amadurece a mais promissora, resolve eventuais incongruências e redige um texto sobre o que quer que seja — em menos tempo do que você levou lendo este parágrafo. Sei disso porque ela me contou. Sim, a gente conversa. Como dizia o sábio Michael Corleone, “mantenha os amigos por perto e os inimigos mais perto ainda”. Tenho de entender o funcionamento da IA, achar seu calcanhar de aquiles (os clichês são um deles) e evitar os recursos de que ela se apoderou. Sempre usei travessão — agora me pego fugindo dele quanto possa. Gostava da estrutura ternária, aquela da dialética, do haicai. Ou, já que estamos neste gênero vira-lata que é a crônica, como no anúncio do Prestobarba, em que a primeira faz tchã, a segunda faz tchum e... tchã tchã tchã tchã. A IA me privou desse gozo de escrever em ritmo de guarânia. Barroco de nascença, se eu tivesse de levar uma única figura de linguagem para uma ilha deserta, levaria a antítese (e, de contrabando, o paralelismo). Porque, para mim, a crônica não é obra para durar, mas uma tessitura efêmera. Não é um formato, mas um jeito de buscar o deus das pequenas coisas. Aí vem a IA — que não consegue dar “bom dia” sem se valer do esquema “não é isso; é aquilo” — e me rouba esse pirulito. Me sinto na “Casa tomada”, de Julio Cortázar, obrigado a recuar à medida que Claudes e GPTs vão tomando posse da linguagem humana. Já não dá para digitar como se cada letra fosse uma gota de sangue e a entrelinha abrigasse a privacidade possível. A IA abriu a torneirinha de comparações supostamente poéticas e inundou tudo com seu frasismo de botequim. Se a concorrência é inevitável, melhor entregar-lhe em sacrifício os continhos galantes e nada exemplares de Dalton Trevisan, as ignorãças de Manoel de Barros, o púcaro de Campos de Carvalho, e ver se a IA entra em parafuso. Quem sabe ela surte com os cantares gozosos de Hilda Hilst, a pedra e a faca de João Cabral, o grande sertão de Guimarães Rosa, o coração selvagem de Clarice; e nos dê trégua. Enquanto ela não tomar gosto por intertextos, metalinguagem e ironia, meu emprego está garantido. Depois, é fechar a porta, jogar a chave no bueiro — e dançar um tango argentino.
Inteligência artificial ocupa o nosso espaço
Enquanto a IA não tomar gosto por intertextos, metalinguagem e ironia, meu emprego está garantido







