A criatividade humana passa por pensamentos “fora da caixa”, mas também por estímulos que recebemos desde o nascimento e que ajudam a moldar a plasticidade do cérebro. Outra origem para a veia criativa pode vir de métodos de observação cotidiana de acontecimentos que se transformam em histórias. Mas em todos os casos o diagnóstico é que os processos de inteligência artificial não conseguem gerar novas variantes artísticas, mas apenas trabalhar em cima do que foi criado. O tema foi discutido no painel “Criatividade não é acaso, é potência cerebral em movimento”, evento promovido pela Globo e pelo Valor na noite de terça-feira (9) nos Estúdios Globo, na zona sudoeste do Rio, com a participação do neurocirurgião Paulo Niemeyer e da cineasta, roteirista e diretora Rosane Svartman, com mediação da jornalista Natuza Nery, da Globonews. Niemeyer, diretor do Instituto Nacional do Cérebro, explicou que o pensamento pode ser classificado como convergente ou divergente. O convergente segue as regras e chega a respostas exatas. O divergente é o “fora da caixa, que enxerga várias soluções para o mesmo problema. Esse ponto, diz, mostra que há indivíduos que têm capacidade maior de ter ideias, de criar. Mas essa criação, afirma, depende ainda de outros fatores. As ideias vêm do mundo. As ideias vêm do nosso tempo, do espírito da época” O neurocirurgião citou a plasticidade do cérebro, um órgão dinâmico, segundo ele: “Nascemos com 30% do cérebro formado, os outros 70% são o meio ambiente, a cultura, que vão formando conexões e novas sinapses. Essa plasticidade é que dá a possibilidade de novas conexões que podem levar a ideias novas”, afirmou Niemeyer. “Quanto maior a plasticidade, maior a possibilidade de um pensamento diverso”, disse Niemeyer no debate, feito em parceria com o Web Summit. Rosane Svartman, autora de novelas como “Vai na fé” e “Dona de mim”, defendeu o processo criativo de observação, inclusive com o uso do noticiário, para criar histórias. “As ideias vêm do mundo. As ideias vêm do nosso tempo, do espírito da época”, disse. A diretora lembrou da personagem Sol, protagonista de “Vai na fé”, que era uma mulher negra, evangélica e periférica. Na época em que a novela estava no ar, contou, o censo demográfico mostrou que o brasileiro evangélico médio era mulher, negra e periférica. Segundo Svartman, essa formação da personagem não foi uma coincidência, mas a incorporação na história de algo que estava latente na sociedade: “O que faz parte do que faço como criadora é prestar atenção no mundo à minha volta e anotar tudo o que me chama a atenção.” Nesse contexto, Niemeyer destacou que as diferentes nuances criativas humanas são decorrentes de experiências pessoais, as quais incorporam sentimentos como dor e amor, entre outros. Desta maneira, diz, é impossível para a inteligência artificial criar de forma tão ampla quanto o ser humano: “Quando alguém pede à IA para fazer uma coisa, ela faz porque recebeu uma ordem. O humano tem que ter um lampejo”, disse. “Quando surgiu o movimento impressionista, por exemplo, foi um salto, uma criação do homem. O que não existe está fora da caixa da inteligência artificial. Ela pode criar textos baseados no que foi colocado ali, fazer uma combinação de cores bonitas, mas lançar o cubismo? Não, isso ela não vai fazer.”
Pessoas criam e a IA trabalha em cima da criação
O tema foi discutido em painel promovido pela Globo e pelo Valor com a participação do neurocirurgião Paulo Niemeyer e da cineasta, roteirista e diretora Rosane Svartman










