Levei semanas para terminar "A Singularidade Está Mais Próxima", do futurista Ray Kurzweil. Não pela dificuldade do texto, mas porque cada capítulo me obrigava a fechar o livro e parar para pensar, muitas vezes tarde da noite, num assunto que eu não esperava carregar comigo por tanto tempo.

Kurzweil defende, com segurança, que até 2029 a inteligência artificial vai igualar a humana em praticamente qualquer tarefa cognitiva. Até 2045, chegaremos à singularidade, quando a fusão entre biologia e tecnologia vira rotina. A previsão não nasceu agora; ele a faz desde os anos 1990, e acertou datas suficientes para que cientistas que riam dele há 30 anos passassem a levá-lo a sério.

Essa discussão não é exclusiva do Vale do Silício. No mundo dos negócios chinês, a conversa já mudou de figura. Não se discute mais se a inteligência artificial vai igualar a humana, só quando. Em textos do Oriente Médio sobre o mesmo livro, a imagem de quem lê Kurzweil é quase idêntica à minha, alguém com um olho brilhando de curiosidade e o outro tremendo de apreensão.

Quanto mais avanço na leitura, mais me convenço de que a inteligência artificial de hoje talvez seja a parte menos radical dessa história. O verdadeiro salto vem depois, quando ela deixa de ser algo que consultamos numa tela e passa a se integrar ao corpo e à mente, nanorrobôs na corrente sanguínea, córtex conectado à nuvem, memória ampliada por dentro. É esse capítulo —mais do que o do chatbot que escreve email— que me tira o sono, me preocupa e me empolga na mesma medida.