A colunista Maria José Tonelli reflete sobre a crise da identidade profissional diante da inteligência artificial 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O livro “Depois do sucesso: ansiedade e identidade fin-de siècle”, foi escrito por Ray Pahl, em 1995, ainda bem no início da difusão da internet e obviamente bem antes das IAs. Trata-se de uma obra que descreve como a identidade, centrada na ocupação e nos modelos de trabalho do século passado, guiava o sucesso pessoal com base na ideia de uma mobilidade social sempre ascendente. Essa visão econômica de sucesso guiou a mentalidade contemporânea, em conjunto com o conceito de meritocracia. A ambição individual era o motor que alimentava essa possibilidade, sustentada por determinação, estudos nas boas universidades e o livre fluxo dos mercados. Embora a confiança, que pressupõe relações entre as pessoas, tanto nas equipes como no sistema, tenha sido a base de sustentação deste modelo, as recompensas sempre foram individualmente atribuídas. Desde então vários fatores foram restringindo o alcance desse modelo ideal e, cada vez mais, as pessoas foram mergulhando na ansiedade e na insegurança, sem respaldo das instituições sociais. Nesse cenário, que se intensificou na pós pandemia, as relações pessoais no trabalho, na família, entre amigos e amores forem se dissolvendo. Não porque as pessoas deixaram de querer alguma estabilidade nos relacionamentos. Apenas eles não se sustentam mais e, hoje, as IAs são usadas para terapias e relações afetivas, suprindo, de alguma forma, essas faltas. Além disso, o uso de estimulantes, antidepressivos e outras substâncias tóxicas se disseminou como forma de aliviar a ansiedade ou dar a energia que falta para um trabalho que nunca cessa. Não é de hoje o uso do café para nos manter acordado no trabalho; essa necessidade alavancou a agricultura do café brasileiro ao manter as pessoas acordadas no período da revolução industrial inglesa no início do século passado. "Doping corporativo" é o nome dado hoje para o uso de todas essas substâncias com fins laborais. Os aditivos e as ferramentas tecnológicas sempre estiveram presentes na organização do trabalho. Trinta anos se passaram e as questões levantadas por Ray Pahl foram amplificadas com o uso das IAs. E, quando gestores não forem mais necessários e as demissões dos colarinhos brancos forem cada vez mais frequentes, poderemos nos perguntar: o que será sucesso e o que fazer com nossas identidades profissionais? O que fazer quando o esforço individual não for mais suficiente para alcançar o sucesso, não por deficiências pessoais, mas por uma transformação estrutural nas organizações, que passa a ser regulada por tecnologias, nessa mistura de humanos e não humanos? Colunista observa que gostamos de criar robôs à nossa imagem e semelhança, mas não gostamos propriamente de nós — Foto: Freepik Embora haja uma visão otimista de que precisaremos ser cada vez mais “humanos”, o fato é que teremos que conviver com a ideia de termos, cada vez mais, gestores ciborgues, com novos conceitos de tempo e espaço, e um novo conceito de social, que incorpora elementos não humanos e que, por sua vez, estarão presentes nas ações e nas atividades de trabalho. Essa nova visão se distancia do Humanismo e do Iluminismo, que localizavam o humano como o centro dos valores. A materialidade, que sempre esteve presente nas atividades humanas, passa a ocupar um lugar proeminente. O social e o material , nessa visão, não são dimensões independentes, e nossa agência depende da interação entre humanos e não-humanos. Como no futuro pensado por Donna Haraway, no “Manifesto Ciborgue”, já não somos mais humanos, mas sim criaturas pós-gênero, que reorganizam os conceitos de natureza e cultura, e diluem as ideias tradicionais de casa, trabalho, corpo, amor e mercado. Escrevendo nos anos 80, Haraway já antecipava o híbrido que somos: o humano resulta da fusão entre máquinas e organismos. E antes dela, lá em 1747, Julien Offray de La Mettrie, já promovia a ideia de um “L’Homme machine”. Não é de hoje que não gostamos de sermos humanos e não é de hoje que ser humano não é apenas produto da natureza. Gostamos de criar robôs à nossa imagem e semelhança, mas não gostamos propriamente de nós. Nessa visão de futuro, todas as dicotomias modernas se dissolvem e o gestor pós-humano será uma criatura híbrida. Resta saber como vamos dar conta de reorganizar o social com tantos humanos sem ocupação e sem a identidade antes dada pelo exercício do trabalho. Maria José Tonelli é doutora em psicologia social, professora titular na FGV–EAESP, e especialista em diversidade e desenvolvimento de lideranças.