Em uma pequena caixa preta, em um armário logo ao lado da minha mesa, guardo um dos meus poucos bens mais preciosos: um conjunto de cartas Oblique Strategies, autografado por seu co-criador, o artista e músico Brian Eno. As cartas, cada uma com uma breve instrução, servem como estímulos para pessoas criativas.

Algumas são práticas: "Faça uma lista exaustiva de tudo o que você poderia fazer e faça a última coisa da lista." Algumas são enigmáticas: "Uma linha tem dois lados." Outras certamente irritariam a maioria dos músicos profissionais: "Troque os papéis dos instrumentos."

Essas instruções visam estimular conversas úteis entre os integrantes de uma banda, lembrar produtores de opções ou perspectivas que talvez tenham esquecido e, acima de tudo, forçar artistas experientes a abandonar seus clichês confortáveis e encontrar uma nova abordagem. Meu livro "Messy", de 2016, elogia essas cartas e explica por que elas, e outros pequenos incômodos semelhantes, são estímulos tão poderosos para resolver problemas. É curioso, portanto, que eu raramente as utilize.

Não estou sozinho nessa relutância. Quando Eno convenceu David Bowie a adotar as cartas durante a gravação de sua célebre trilogia de Berlim —"Low", "Heroes" e "Lodger"—, os músicos que trabalhavam com ele nem sempre apreciaram a intervenção.