Foi a manifestação física da opressão intelectual que há em boa parte das universidades. É um sujeito sendo espancado por uma multidão, barbárie confeitada com superioridade moral 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Cultura do linchamento — Foto: Reprodução De todas as coisas estarrecedoras que vi ultimamente — e que não têm sido poucas —, a mais estarrecedora foi o linchamento da UFRJ. Está todo mundo sabendo, não? Um estudante foi retirado de uma sala de aula por um colega que afirmou lhe dar voz de prisão e, em seguida, brutalmente agredido escadaria abaixo, no pátio e já na rua, por outros estudantes. Em volta, uma pequena multidão gritava: “Recua, fascista!” Isso porque ele estaria usando a camiseta de uma banda supostamente nazista. Mais tarde, quando a “narrativa” começou a ser “controlada”, surgiram depoimentos acusando-o de injúrias raciais, de ter dado cotoveladas no seu captor, de ter ofendido as mulheres presentes, de ter ameaçado uma ex-namorada; ele nega. Mas não foi essa a coisa estarrecedora. O linchamento foi apenas a manifestação física do clima de opressão intelectual que existe em boa parte das universidades públicas, onde só é permitido pensar e falar por clichês e “narrativas controladas”. Mais cedo ou mais tarde ia acontecer mesmo, se é que já não aconteceu incontáveis vezes e apenas não foi filmado. A coisa estarrecedora foi o que veio depois. Em vez da reação elementar que se esperaria de uma universidade — ninguém dá voz de prisão a um colega, ninguém o arrasta para fora da sala, ninguém o espanca porque se considera dono da verdade —, centros acadêmicos mantiveram a acusação e convocaram ato contra “ameaças nazifascistas”. Um manifesto assinado por 254 educadores (!) tomou partido contra o estudante que acabara de ser espancado e se solidarizou com seus agressores. Desculpem repetir tanto a mesma palavra, mas é estarrecedor o abismo moral em que mergulharam professores e demais adultos que não entenderam, ou fingiram não entender, o que aconteceu. Tanto faz o que o rapaz agredido defenda em teoria: nazismo, leninismo, até banda punk. Ele que se entenda com a polícia se cometer algum crime. O que não se pode aceitar é linchamento, em qualquer circunstância. Ponto. Não existe “outro lado” nessa história, bastante bem documentada na coleção de vídeos divulgados pelos próprios estudantes, orgulhosos da justiça que estavam fazendo: o que existe é um único sujeito, sozinho, sendo espancado por uma multidão. Não interessa se ele estava de minissaia ou se tinha roubado ou não uma bicicleta. O que existe aqui é violência disfarçada de justiça, barbárie confeitada com superioridade moral. Um linchamento. A palavra é rude, é violenta, mas descreve o que aconteceu. “Linchamento” não exige morte. É a agressão ou punição violenta, praticada por uma multidão, fora de qualquer procedimento legal. Linchamentos costumam ser cometidos por gente que se acha do “lado certo da História”, seja qual for esse lado naquele momento. Aceitem, alecrins dourados. O pior é que as universidades públicas já têm inimigos de sobra, gente que as despreza e as reduz a caricaturas de doutrinação. Um episódio como este é material de propaganda para a direita, embrulhado para presente. É assim, por sinal, que se elege um bolsonaro: também pela arrogância moral de quem se julga tão virtuoso que imagina poder fazer qualquer coisa em nome da própria virtude.