Os verdadeiros democratas, de direita e de esquerda, têm de combater a intolerância em seus próprios campos 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Prédio do IFCS, da UFRJ — Foto: Fabio Rossi / Agência O Globo O ciclista Cláudio Rafael Landeiro foi linchado em Copacabana no último dia 11 (morreu no dia 12). A OAB se pôs à disposição da família. O Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) exigiu investigação rigorosa. Incontáveis ativistas, pesquisadores, políticos indignaram-se com a barbaridade. Os suspeitos foram presos. O estudante Diego Araújo foi linchado no Instituto de Filosofia e Ciência Sociais (IFCS) da UFRJ no dia 25 (sobreviveu, felizmente). Seus agressores, outros estudantes, alegaram que ele fazia apologia do nazismo. Irrelevante — nenhum crime autoriza justiçamento —, o argumento não se sustenta e busca culpar a vítima. Depois de ficar claro que o broche usado por Diego era antinazista, surgiram acusações novas, de que ele agredira um estudante e proferira injúrias racistas e misóginas. Não é o que se vê nos muitos vídeos que surgiram. O que se vê é uma turba socando e chutando uma pessoa indefesa. Se Diego tivesse sido espancado pela polícia por usar broche ou camiseta de Stálin, é certo que a reação seria a mesma provocada pelo assassinato de Cláudio. Mas Diego foi espancado por estudantes que pensavam ser ele nazista. A repercussão foi distinta. A polícia instaurou “procedimento” (não se sabe de inquérito). Ministério Público, OAB e CNDH estão em silêncio. A UFRJ, em nota, tratou agredido e agressores de forma parecida, e tanto seu reitor como o IFCS seguiram na mesma linha. Os centros acadêmicos convocaram mobilização contra as “ameaças nazifascistas” na universidade. A única entidade a condenar o crime de forma inequívoca foi a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Se as condenações foram poucas e fracas, os aplausos foram incontáveis e ensurdecedores. “Apanhou foi pouco”, “deveria ter saído de ambulância”, “deviam ter quebrado todos os dentes” foi o que se viu nas redes. Quem ousa defender Diego é cancelado e ameaçado. Mais de 300 professores e técnicos da UFRJ e de outras instituições assinaram nota em solidariedade aos alunos. Sem presunção de inocência ou direito à defesa, decretaram que Diego é “neonazista” e agrediu outros estudantes. Caracterizaram o linchamento como “autodefesa”. (Ao mesmo tempo, condenaram justiçamentos e defenderam a universidade como espaço de pluralidade, inclusão, respeito e reconhecimento das diferenças. É impossível não pensar em Orwell e seu “duplipensar”.) Há uma esquerda que combate o “bandido bom é bandido morto”, mas só se o “bandido” for um dos seus. Que acha que “a vítima tem sempre razão”, mas só se ela for de esquerda. Que invoca o Estado Democrático de Direito, mas só em favor de quem está “do lado certo da história”. Depois do politicamente correto, do monopólio de virtude, da patrulha ideológica, do cancelamento de quem pensa diferente, da censura, da judicialização do delito de opinião, das ameaças e do assassinato de reputações, essa esquerda chegou à tentativa de assassinato pura e simples. A dinâmica evolui do macarthismo para a Revolução Cultural chinesa. Recentemente, Wagner Moura se referiu aos cancelamentos de esquerda como “fascismo de esquerda”, para depois ponderar que “fascismo” era uma palavra inapropriada. O enorme aplauso a uma dúzia de pessoas chutando a cabeça de alguém caído no chão mostra que era a palavra apropriada, afinal. A esquerda tem razão quando acusa a direita supostamente democrática de ser leniente com a extrema direita — mas a esquerda supostamente democrática e a comunidade acadêmica tratam a extrema esquerda com a mesmíssima leniência. A consequência é o avanço dos radicais e intolerantes de um lado e de outro. Já passou da hora de os verdadeiros democratas, de direita e de esquerda, terem a coragem de denunciar e combater a intolerância dentro de seus próprios campos. A alternativa é sombria. Há exemplo em que se inspirar. Em 1968, no Rio de Janeiro, a PM matou o estudante Edson Luís Souto. O episódio uniu um amplo arco da sociedade brasileira contra a ditadura. O corpo foi levado em cortejo até o cemitério, com a população erguendo cartazes de protesto. O mais famoso dizia: — Mataram um estudante. E se fosse seu filho? *Ricardo Rangel é diretor e produtor de audiovisual
E se o estudante linchado na UFRJ fosse seu filho?
Os verdadeiros democratas, de direita e de esquerda, têm de combater a intolerância em seus próprios campos









