Instituições da universidade não tiveram coragem de enfrentar os movimentos sociais e condenar com a devida força tal agressão em suas dependências 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Campus da UFRJ no Fundão — Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo / 29-08-2020 Em 1630, a cidade de Milão foi atingida por uma devastadora epidemia de peste bubônica. Numa manhã de junho, duas mulheres viram pela janela um homem passar a mão num muro. Era Guglielmo Piazza, comissário de saúde, que limpava os dedos sujos de tinta. Piazza foi denunciado e preso como untore, um espalhador de peste. Torturado, prometeram-lhe impunidade se entregasse cúmplices. Ele terminou denunciando o barbeiro Gian Giacomo Mora, que produzia uma pomada para proteger do contágio— e passou a ser acusado de tê-la fabricado para espalhar a peste. Mora foi preso, torturado e também confessou. Os dois foram levados por uma carroça pelas ruas e submetidos a suplícios violentos. A casa do barbeiro foi arrasada. Sobre o terreno ergueu-se uma coluna com a inscrição do crime, a “coluna infame”. Passaram-se 200 anos até Mora e Piazza serem moralmente reabilitados no famoso ensaio histórico de Alessandro Manzoni “História da coluna infame” (Editora Unesp). Manzoni não se limitou a denunciar o linchamento, mas apontou a complacência das instituições e dos juízes que mentiram, abusaram do poder, violaram as leis e usaram dois pesos e duas medidas. A injustiça contra Mora e Piazza não foi causada pela irracionalidade da multidão, mas pela racionalidade das instituições. A leitura do ensaio de Manzoni não poderia ser mais oportuna. Há duas semanas escrevi aqui na coluna sobre a agressão contra Diego Araújo, o estudante de História da UFRJ arrancado da sala de aula por uma turba sob a acusação de fazer apologia ao nazismo. Ele foi agredido em três momentos por mais de dez pessoas até ser expulso do prédio onde estudava. Depois de linchado com socos e pontapés, foi linchado moralmente numa campanha de difamação sórdida e covarde. Reportagens posteriores e o avanço das investigações permitem ver agora como as instituições agiram não apenas para não punir os agressores, mas também para imputar culpa à vítima, duplicando a agressão a Diego Araújo. Quando o escândalo eclodiu, nenhum elemento sustentava as alegações dos agressores de que haviam expulsado da universidade um provocador nazista. Naquele momento, tudo o que havia eram dois vídeos. No primeiro, Diego exibia um broche antinazista e explicava que a caveira da SS na sua camiseta tinha função crítica, como faziam artistas “como David Bowie”. No segundo vídeo, mais de dez pessoas espancavam um Diego tombado na escada. Apesar de tudo indicar que a turba não foi capaz de entender a simbologia antinazista e que tinha resolvido fazer justiça com as próprias mãos, uma onda de solidariedade institucional com os agressores se disseminou na universidade. No mesmo dia das agressões, uma postagem em colaboração entre a UNE e o DCE da UFRJ reiterava a tese do estudante com símbolo nazista “retirado” da universidade. UFRJ e Instituto de Filosofia e Ciências Sociais soltaram notas ambíguas criticando o nazismo e a violência. Os diversos sindicatos e movimentos sindicais — Sintufrj, Asduerj e CSP-Conlutas — se solidarizaram com os agressores e condenaram o nazismo, o racismo e o fascismo. Embora o linchamento estivesse documentado e a apologia ao nazismo fosse alegada e contestada, as instituições da UFRJ não tiveram coragem de enfrentar os movimentos sociais e condenar com a devida força um linchamento em suas dependências. O que veio depois foi pior. Um manifesto de “docentes em defesa da UFRJ”, com mais de 200 assinaturas, inclusive de um ex-reitor, posicionou-se “em solidariedade aos estudantes agredidos por um neonazista” e repudiou “a caracterização da reação de autodefesa dos estudantes como um ato de linchamento”. Um grupo de pesquisa em direitos humanos ponderou que “a violência do oprimido não é a violência do opressor” e que “uma reação coletiva de estudantes diante de símbolos que celebram o extermínio” não pode “ser lida na mesma chave que o gesto que a provoca”. (Agradeço ao projeto Disputas por Expressão nas Universidades, da UFF, pelo levantamento dessas manifestações.) Como no episódio da coluna infame, a injustiça não foi causada pelo furor da multidão, mas pelo endosso racionalizado das instituições. Manzoni diz que os magistrados de Milão buscavam “os culpados de um delito que não existia, mas que se desejava”. Aqui também nossos antifascistas encontraram um culpado para um crime que precisavam combater. O mais inquietante, no caso de Diego Araújo, não é que uma multidão tenha se convencido de que fazia justiça, mas que tantas instituições tenham se empenhado em convencê-la de que tinha razão.