Em incontáveis universidades, nas Humanidades, alunos intimidam seus professores faz uma década 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O IFCS/UFRJ — Foto: Domingos Peixoto Na última terça-feira à noite, Diego Costa Araújo, estudante do 10º período de História da UFRJ, foi violentamente espancado por colegas dentro do prédio histórico do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, no Centro do Rio. Como o empurraram escada abaixo, poderia ter morrido. Era um rapaz intimidado, cercado por dezenas. Na noite de quarta, os homens que o espancaram começaram outro processo — o assassinato reputacional. Entre os vídeos distribuídos e as mensagens trocadas no grupo de WhatsApp do Centro Acadêmico, é possível reconstruir boa parte do que aconteceu. Às 19h57, um estudante enviou no grupo a primeira mensagem: — Gente, acabou de sair do refeitório um cara branco, todo de preto, com camisa com um símbolo nazista. Caçaram — e acharam rápido. — Ele está na aula de Educação Brasileira, sala 317 — registrou a mensagem às 20h. Três alunos invadiram a sala sem qualquer funcionário da universidade impedi-los. Uma multidão se formou à porta. O líder, um estudante de Direito, pressionou Diego. Perguntava se ele era nazista. A resposta veio com o broche que ele vestia. Nítido. Uma suástica riscada, numa placa de proibido. Não adiantou. O líder lhe deu voz de prisão enquanto a multidão gritava “fascista” do lado de fora. Foi tirado da sala aos empurrões. No corredor, começaram os chutes. Ouviu que, lá embaixo, já havia uma viatura o esperando. Era mentira. À beira da escada, seguiram empurrando. Ele se agarrou a quem estava do lado, desceram acelerados o primeiro lance — a cena pode ser vista on-line. Diego recebendo já socos e pontapés. Apanhou na escada, apanhou no térreo, apanhou contra a grade do prédio — e apanhou, depois, no Largo de São Francisco. Aí foi para um hospital público, onde passou a noite. Seu último emprego foi como garçom num bufê. As celebrações começaram no WhatsApp às 20h27. — Estou curada que amassaram esse fudido (sic), o tempo de Deus é perfeito — escreveu a primeira. Então, uma segunda: — Só faltou a guilhotina. Aí, se queixou outro: — Eu estava tentando botar ele pra dormir, ele me mordeu. Mais um: — Ferver o corpo pra não sobrar nem as unhas. Às 22h01, o primeiro percebeu o risco legal e fez uma lista de recomendações. Entre elas: — Se forem cometer crimes, evitem postar na internet. Outra: — Postar a porradaria em qualquer rede mostrando a cara de quem estava envolvido só vai dar merda. Mais: — Apaguem os vídeos do grupo. O líder gravou um vídeo, publicado no X às 22h26: — Hoje a gente encerrou, aqui no IFCS, uma apologia ao nazismo. Um aluno estava com, além de uma camisa, um broche. Não há, na noite de terça-feira ou durante o dia, na quarta, qualquer menção a injúria racial. Na quarta, os vídeos já circulavam amplamente, e não faltou quem observasse: o botão na lapela era antifascista. — Estão chamando ele de herói, até de antifascista — alertou alguém, às 19h46. E então, mais de um: — Precisamos controlar a narrativa. O líder foi à internet novamente. Um dia depois, a acusação havia mudado: — Ele me chamou de macaco. Poucas coisas são mais previsíveis, nas redes sociais. Se uma única pessoa negra disser que foi chamada de “macaco”, o alinhamento da esquerda é imediato. Artistas, jornalistas, influenciadores, professores. Não é preciso provar. Não importa se as imagens são de um rapaz violentamente espancado. Serão ignoradas. Dificilmente se encontrará um sociólogo que defenda o espancamento de um criminoso pela população. Num linchamento, ninguém pondera: — Ora, mas ele era ladrão. E mais de 200 professores da UFRJ assinaram um manifesto contra Diego, em favor dos linchadores. Há ovos da serpente da extrema esquerda, chocados no Brasil faz alguns anos. O primeiro eclodiu. Existe uma razão para nenhum professor ter se manifestado durante a cerimônia sádica. Estão intimidados. Um grupo de alunos entrou numa sala de aula, fez um julgamento sumário, partiu para a execução. Entre acusação e ataque — “só faltou guilhotina” —, menos de meia hora. Em incontáveis universidades, nas Humanidades, alunos intimidam seus professores faz uma década. Vetam livros e autores, conseguem a expulsão de colegas, impõem dogmaticamente uma lista de temas. Funciona. Nesta semana, a esquerda que se manifesta perdeu sua bússola ética e democrática. A outra parte se calou. No grupo de zap do Centro Acadêmico, um dos espancadores escreveu o seguinte, minutos depois do crime: — Mandava ele morder o meio-fio e depois pisava a cabeça. Pausa. Mensagem seguinte: — Para quebrar todos os dentes. Descrevia a fantasia de ter vivido uma cena de “A outra história americana”, filme em que Edward Norton vive um neonazista. Que espanca um homem. Negro. Deve dormir na paz dos justos.
Há ovos da serpente da extrema esquerda, chocados no Brasil
Em incontáveis universidades, nas Humanidades, alunos intimidam seus professores faz uma década














