A violência fascista nunca se apresentou apenas como violência. Precisou de uma embalagem moral que a autorizasse. Em "A Personalidade Autoritária", Adorno e seus colegas identificaram na agressão autoritária uma disposição central: a convicção de que certas pessoas, por violarem valores fundamentais, merecem ser punidas. A agressão deixa então de parecer crueldade e passa a ser experimentada como justiça.
Durante décadas, a esquerda tratou esse mecanismo como propriedade quase exclusiva da direita, mas o episódio da semana passada na UFRJ deveria abalar essa certeza.
Na noite de terça-feira (25), Diego, estudante de história, foi arrancado da sala de aula, cercado, perseguido e espancado por colegas no prédio que abriga o Instituto de Filosofia e Ciências Sociais e o Instituto de História. Usava uma camiseta da controvertida banda Death in June, cuja iconografia é associada por críticos ao nazismo, e um broche com uma suástica riscada, que ele afirma ser antinazista. As imagens mostram um grupo atacando-o com socos e chutes na cabeça, inclusive quando já estava caído.
A justificativa já estava pronta: classificá-lo como nazista. Publiquei dois breves comentários dizendo que a violência coletiva para calar quem encarna uma ideologia intolerável sempre fez parte do repertório fascista e que era contraditório usá-la para, supostamente, provar-se antifascista. A resposta recebida foi uma aula sobre autorização moral da violência política. "Não pode mais bater em nazista?" "Nazista tem que ter medo." "Não se venceu a Alemanha nazista com flores." E com admirável nitidez: "Normalmente sou contra a violência, mas bater em nazista ou em quem flerta com o nazismo pode".












