A chamada "cultura da vítima" —ou, em linguagem mais técnica, a política baseada na reivindicação da condição de vítima— é hoje tema de bibliografia consistente em psicologia social, comunicação política e teoria da política. O termo designa a transformação da vítima em posição moral privilegiada, a partir da qual se reivindicam reconhecimento, proteção, reparação ou punição.

Minha hipótese é que essa linguagem se tornou hegemônica no Brasil não apenas na militância, mas também na Justiça, na legislação e na regulação estatal. O juiz, o promotor, o legislador e o governo passaram a operar, cada vez mais, com uma imagem da sociedade dividida ontologicamente entre opressores e vulneráveis, em que a representação de cidadãos formalmente iguais perante regras gerais perde sentido.

Ao conceder perdão judicial a Monique Medeiros, por exemplo, a juíza do caso Henry Borel mobilizou sofrimento materno, massacre social, misoginia e cultura patriarcal. A mãe acusada de omissão diante da violência contra o filho foi reconstruída como vítima de uma sociedade que pune mulheres de modo mais duro do que homens. Omissão e responsabilidade disputam centralidade com o sofrimento social da acusada.

A direita que vociferou contra o vitimismo progressista opera, porém, de modo semelhante. Quando Jair Bolsonaro concedeu indulto a Daniel Silveira, o ato não foi vendido à sua base como simples uso de prerrogativa constitucional, mas como reparação contra a perseguição de uma vítima da "ditadura de toga".