O que mais intriga num processo de fascistização das massas é que uma multidão cega persiga um líder obtuso, construído em torno de mentiras e de ideias tão simplistas e vagas que relativizam a verdade e o bom senso. Assim foi feito o “Mito”, como se autodenominava Jair Bolsonaro. Para um observador da história, todavia, intriga também o fato de existir um ponto de exaustão, além do qual o gênio das Mil e Uma Noites da extrema-direita é recolhido à lâmpada, para lá dormir até que alguém tenha a infeliz ideia de limpá-la e, sem querer, liberar um demônio de ideias pobres que enfeitiça multidões.
No caso brasileiro, os sinais de exaustão ocorreram de repente, quando se imaginava que Bolsonaro, mesmo após uma tentativa de golpe de Estado, protegera sua popularidade do impacto das inúmeras revelações de seu desprezo, e do seu clã, pela democracia, pelo dinheiro público e pelo sofrimento dos mais vulneráveis. Mesmo condenado e preso, o ex-capitão conseguiu transferir para o filho Flávio simpatias de um eleitor forjado no fenômeno de ascensão da extrema-direita e feito à imagem e semelhança do líder: a massa extremista é conservadora, machista, misógina, racista, anticomunista e homofóbica, e mantida unida e coesa em torno de “valores” ditos “cristãos”, de preferência adquiridos em templos evangélicos liderados por bispos e pastores com ativa militância em favor da extrema-direita e copartícipes das decisões de governo do período bolsonarista.









