Os celulares de Daniel Vorcaro guardam um país. No pouco que já veio a público, conhecemos relações nada republicanas com os três Poderes, governo e oposição. Numa camada mais sombria, conexões com milícia, jogo do bicho, matadores de aluguel e fundos de investimento conectados ao PCC. A velha doença do patrimonialismo encontrou a infiltração do crime organizado na economia formal e no setor público. Radiografia de um patrimonialismo mafioso.
O presidente da República recebeu um gângster no Palácio do Planalto, fora da agenda oficial, por intermédio de um ex-ministro. Pelo que sabemos, seu principal opositor foi ainda mais longe: cobrou dinheiro do mafioso. E recebeu. Não satisfeito, após ser flagrado na mentira, defendeu a negociata: "Não tenho que justificar nada a ninguém", disse o príncipe herdeiro do bolsonarismo.
Como se vê, o fenômeno já orbita os centros de poder da República. Negligenciá-lo pode levar à captura fatal da democracia brasileira pela máfia.
Some ao quadro nacional uma recessão democrática global: hoje, 74% da população mundial vive sob autocracias, um retorno ao nível médio de 1978, segundo o relatório V-DEM. Cresce o sentimento de que o Estado de Direito foi convertido em ornamento hipócrita do poder real. Emergem, como tentações, niilismo e desesperança. Tentar articular respostas fora do desprezo, da ruptura ou da reprodução dos vícios do sistema soa ingenuidade. Ceder a essas tendências, porém, é cavar mais fundo o buraco em que estamos.













