Numa prosa de final de semana, um candidato a deputado federal nos relatava como, na periferia de uma capital do Nordeste, um nome forte era “a candidata do PCC”. Curiosos, pedimos mais detalhes. Segundo o relato, a probabilidade de vitória da aludida candidata se relacionava com investimento importante — R$ 20 milhões — vindo do crime organizado e “cevando” mensalmente líderes comunitários.PUBLICIDADEUm dos efeitos, nosso interlocutor enfatizava, era a elevação de custos da campanha eleitoral e a dificuldade em alinhar apoiadores, diante dos recursos disponíveis ao crime. Além disso, explicou que uma estrutura de lavagem de dinheiro vivo (passando desde postos de gasolina a igrejas locais) impedia averiguação pelas autoridades.Não é a primeira vez que a ameaça de candidatos ligados a facções aparece em campanhas eleitorais. Em agosto de 2024, a Polícia Civil de São Paulo desarticulou um plano do PCC para lançar candidatos próprios nas eleições municipais. A infiltração busca assentos no legislativo, verbas públicas e influência sobre leis, contratos e políticas de segurança pública. Nesse trote, o crime organizado deixa de ser um problema de segurança para se tornar um problema da democracia.Em 2024, Polícia Civil desarticulou plano do PCC para lançar candidatos em São Paulo nas eleições municipais Foto: Marcio Fernandes/EstadãoA trajetória de nossos vizinhos é advertência que não convém ignorar. Na Colômbia, o escândalo que ficou conhecido como parapolítica revelou que mais de um terço do Congresso eleito em 2002 mantinha vínculos com o narcotráfico: foram 102 deputados e 97 senadores investigados, dezenas deles condenados, e um ex-presidente do Congresso preso. Passadas duas décadas, o país ainda carrega essa herança. No México, a infiltração assumiu sua face mais brutal: ali, o crime não se limita a comprar candidatos, também suprime os que recusam a se curvar. Nas eleições de 2024, mais de duas dezenas de candidatos foram assassinados (em ciclos anteriores, a cifra ultrapassou a centena), enquanto aspirantes usam colete à prova de balas, sob escolta armada, em regiões em que, nas palavras de um dirigente partidário, simplesmente não se pode entrar. Desfazer o nó custa gerações, depois de um ponto sem retorno.Leia tambémTarifa é tática de pressão dos EUA sobre o governo Lula em busca de concessõesO labirinto tarifário norte-americano: nem mesmo boa parte de Washington entende mais o sistemaO novo momento Volta Redonda: IA traz a possibilidade de o Brasil se tornar protagonista globalOrigens para o fenômeno são várias. O Brasil proibiu doações empresariais em 2015, mas, na prática, criou nova vulnerabilidade. Com o teto para doações de pessoas físicas e fundo eleitoral insuficientes para cobrir as despesas reais, candidatos passaram a buscar recursos em fontes paralelas, com variado grau de ilegalidade.PublicidadeCom isso, em vários casos o crime financia campanhas de candidatos alinhados a seus interesses. Em outros, o financiamento é indireto: empresas de fachada, doadores indicados ou a promessa de favores, garantindo que eleitos não atrapalhem seus negócios. Além da droga, extorsões, jogos de azar, contrabando e serviços públicos paralelos.Para 2026, chama a atenção a expansão destes casos pelo país. Já se sabe há muito do Rio de Janeiro. Controladores territoriais e facções cobram “taxas” de comerciantes, definem quem pode ou não circular e indicam candidatos que defenderão seus interesses nas esferas políticas. Este risco agora se alastra pelo território nacional.O problema não é meramente moral, mas envolve agendas e legitimidade das instituições. Um político financiado pelo crime afeta votações concretas. Leis de controle de armas mais flexíveis. Cortes orçamentários em inteligência policial. Liberação de jogos que ampliam a lavagem de dinheiro. Redução do controle de fronteiras.No orçamento, vereadores e deputados têm acesso a emendas, indicações de projetos e influência sobre contratos públicos. Em municípios menores, com fiscalização precária e imprensa vulnerável, vereadores direcionam fundos para áreas dominadas por facções, criando um ciclo de lavagem de dinheiro e consolidação territorial.Esse cálculo tornou-se ainda mais sedutor diante de uma transformação silenciosa: o Legislativo brasileiro nunca foi tão poderoso. Desde a Emenda Constitucional 86/2015, que tornou impositivas as emendas individuais, o Congresso passou a comandar fatia crescente do Orçamento da União. Os números expressam o salto: as emendas passaram de R$ 6 bilhões em 2014 para R$ 50 bilhões nos orçamentos recentes, com 2026 beirando R$ 61 bilhões. PublicidadeA isso se soma a penumbra das emendas Pix, que revelam o nome do parlamentar, mas dispensam a destinação específica, embaçando o rastreamento do dinheiro. Para o crime organizado, eleger um único deputado federal — senhor de poder orçamentário direto, autônomo e mal fiscalizado — exige uma fração do que custaria vencer uma disputa majoritária, e ainda rende retorno em verbas carimbadas e normas favoráveis. O candidato a governador ou prefeito disputa sob holofotes e escrutínio; o parlamentar infiltrado opera no varejo, diluído entre centenas de pares, à margem da atenção pública. É nesse atacado discreto, de baixo custo e alto rendimento, que a infiltração encontra o seu melhor resultado.CONTiNUA APÓS PUBLICIDADEO efeito mais perverso, porém, é a erosão da confiança democrática. O eleitor primeiro se indigna, para depois resignar-se. Prevalece a crença de que todas as opções são iguais, de que todo político é corrupto, de que o voto nada muda. É o terreno fértil para o autoritarismo, para os falsos outsiders, para a demagogia da designação terrorista e outras soluções fáceis.O conhecimento do problema pelas instituições existe. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) reconheceu oficialmente o risco. A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) reforçou o alerta em documento interno de 2025.Mas há tropeços, em limites legais, para se combater efetivamente o fenômeno. Condenados por crimes se candidatam, e a Lei de Combate ao Crime Organizado não se aplica automaticamente ao processo eleitoral, o que reduz o arsenal disponível para barrar candidaturas suspeitas. A Justiça eleitoral precisa criar precedentes mais rígidos com relação ao abuso de poder econômico e religioso, sobretudo quando narcopentecostais se multiplicam. E isso com a tarefa de diferenciar, com base em provas, um candidato popular em comunidade carente de um candidato imposto pelo crime.Da mesma forma, a transparência se beneficiaria de uma lei mais realista quanto às doações de campanha. O fundo eleitoral cresceu, mas a desigualdade entre partidos permaneceu, e candidatos sem acesso a estruturas partidárias continuam vulneráveis. Para um candidato em periferia de grande cidade, os custos de campanha ultrapassam em muito o que o fundo permite. Nesse vácuo, o crime organizado oferece mais que o sistema legal: recursos ilimitados e sem burocracia. Um traficante não exige nota fiscal, não presta contas ao TSE e não limita o valor disponível.PublicidadeOutra iniciativa relevante é o investimento em inteligência artificial e cruzamento de dados bancários para identificar padrões suspeitos. Esta tarefa parece particularmente urgente para a próxima eleição.No plano da segurança, há que se pensar na proteção de candidatos e agentes eleitorais. Em regiões dominadas por facções, candidatos que recusam o financiamento criminoso enfrentam ameaças de morte, intimidação de familiares e boicote eleitoral.Idealmente, e mais difícil, é a desarticulação territorial do crime organizado. Enquanto facções e milícias controlarem o cotidiano de milhões de brasileiros, será impossível separar completamente a política do crime. O financiamento eleitoral é sintoma, mas a causa principal é o controle territorial. É onde o dinheiro do tráfico e da extorsão circula nos comitês, imprensado entre panfletos e santinhos.A democracia brasileira sobreviveu a golpes militares, hiperinflação e impeachments. Mas a infiltração silenciosa, candidato por candidato, pode ser mais letal do que qualquer ruptura institucional explícita. Não há decreto de fechamento do Congresso, mas sim emendas suspeitas e licitações adversas a empresas honestas. Se não é uma ameaça com espetáculo, não deixa de ser mais perigosa.Com Wagner Parente, sócio do Barral Parente Pinheiro AdvogadosPublicidade
Opinião | Infiltração silenciosa do crime organizado ameaça o sistema político
Democracia brasileira sobreviveu a golpes, hiperinflação e impeachments; mas a infiltração do crime na política pode ser mais letal do que qualquer ruptura institucional explícita















