Os fenômenos do nazismo e do fascismo impõem a dúvida: o que veio primeiro, Mussolini ou o fascismo? Hitler ou o nazismo? A sociologia se move em torno de um consenso: o líder fascista não floresce se não há uma predisposição da massa em consentir, mesmo às custas de seus próprios interesses. O líder é o personagem histórico que sente o ânimo social porque ele próprio, um homem médio, é produto do meio e compartilha com as massas o mal-estar, o ódio latente, a sensação de perda coletiva irreparável e a paranoia social – o inimigo invisível que trama contra todos e cada um deles.
Os fascistas constituem um país deles, onde apenas cabem o dirigente e “o povo” que a ele adere. É ao “povo” fascista que o líder se dirige e é a ele que o “seu” povo obedece; mas cada fascista extrai para si, desse substrato ideológico, licença para exercer “impulsos cruéis, sádicos, lascivos, sanguinários e invejosos” que afloram no nível de caráter médio da psiquê humana, segundo William Reich.
Diz Reich, no prefácio à terceira edição alemã de A Psicologia de Massas do Fascismo, que esse caráter médio sanguinário se situa entre o caráter de nível superficial do desenvolvimento social (em que o “homem médio” é “comedido, atencioso, compassivo, responsável, consciencioso”) e um terceiro nível, no qual ele alcançaria o ideal socialista (“o animal racional essencialmente honesto, trabalhador, cooperativo, que ama e, tendo motivos, odeia”). A barbárie reside, portanto, na alma do “homem médio”, entre o caráter compassivo e o caráter ideal.













